Era uma boa personagem, embora se irritasse com referências como esta, assim, no feminino. Preferia ser chamado de ‘‘o’’ personagem. Não se pode dizer, entretanto, que motivo tão banal tivesse sido a causa do desgaste no relacionamento. Acontece que, certo dia, revoltou-se com o autor.
- Pra mim, deu. Você está me sufocando.
- Como assim? Espanta-se o escriba.
- Não aguento mais esta vidinha medíocre. Você acha que pode fazer de mim o que quiser, dispor de mim quando bem entende. Não sou boneco de ventríloquo, tenho minhas próprias vontades, sacou?
- Quer dizer que...
- Exatamente. Estou caindo fora.
- Mas você não pode me abandonar assim como se eu fosse um gato vadio, depois de tantos caracteres, tantos parágrafos suados.
- Transpirados, idiota, transpirados. Suado é coisa de cavalo. Deus me livre, você usa muito mal as palavras.
- Espera aí... só porque o considero meu personagem preferido, não precisa me ofender. Quer ir embora, é? Tudo bem. A vida lá fora é muito pior que nos meus romances. Depois não vai voltar arrependido.
- Rá, rá, rá... não me faça rir que me doem os dentes.
- Pois de hoje em diante você não terá mais nenhum dente.
- Que besteira é essa?
- É isso aí. Tome: ‘‘E a partir daquela tarde, ele ficou completamente banguela.’’
- Pare, pare, seu estúpido! Você não tem o direito de escrever isto a meu respeito.
- Como não? Eu sou o criador.
- Um monstro, isso é o que você é! Um monstro de sentimentos mesquinhos, um Ionesco de subúrbio, um ex-emergente...
- Ah, é? Segura essa: ‘‘Enquanto arrumava as malas, seus cabelos começaram a cair, até sua cabeça ficar completamente lisa, reluzente como uma bola de sinuca.’’
Careca e desdentada, a personagem não recua em sua obstinação.
- Nenhuma vingança que brote de sua mente sórdida vai impedir que eu trace meu próprio destino. Adeus, subliteratura!
Desesperado, o autor tenta pensar rápido, precisa escrever alguma frase que evite a separação. Nervoso, as palavras chegam desconectadas umas das outras. Revira o arquivo da memória: faltam-lhe verbos, complementos, os adjetivos fogem feito morcegos assustados.
A criatura vai deixá-lo, talvez para sempre, e ele não consegue digitar no computador nada que impeça a tragédia do romance inacabado. Sente vontade de chorar.
Antes de sair batendo a porta, a personagem ainda olha para ele com uma mistura de ódio e desprezo. Pobre autor. Relembra em flashes os bons momentos que viveram juntos. Com remorso, recorda-se também das vezes em que meteu sua personagem em situações embaraçosas, as ocasiões em que a fez sofrer em seu lugar, numa catarse que era sua própria sobrevivência. Depois começa a sentir ciúmes. A imaginação também sabe ser cruel: o outro dizendo frases inteligentes, sendo adotado pelo Woody Allen. Não, não iria suportar. Toma a decisão insana: ‘‘Na esquina, não percebeu o ônibus que vinha em alta velocidade...’’ Mas era tarde demais. A personagem já não lhe pertencia.

TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.
• Programa imperdível no Guairinha, em Curitiba: ‘‘Esperando Godot’’, de Samuel Becket, com o grupo Armazém Cia. De Teatro. Direção: Paulo de Moraes. Música: Arrigo Barnabé. Às 21 horas.
• As bruxas estão soltas. De hoje a domingo, o Departamento de História da Universidade Estadual de Londrina promove no anfiteatro do CCH o ‘‘1º Ciclo de Estudos Medievais’’ com o tema ‘‘Heresia, Santa Inquisição e Bruxaria’’.
• Anote na agenda: dia 22, show com Cristina Tonin (voz) e Eduardo Brancalion (violão e guitarra) no Bar Valentino, em Londrina.
• Recebo exemplar da revista ‘‘Maxi In’’, produzida pelo Colégio Maxi de Londrina. Neste número (19), matéria sobre ecoturismo e perfil de Celso Garcia Cid. Ótimo trabalho dos jornalistas Luis Carlos Godoy e Karla Matida.
• Para quem gosta, um banquete: ‘‘The Microsoft File’’ (O Arquivo da Microsoft), da jornalista norte-americana Wendy Goldman Rohm, detona com o nerd-mor Bill Gates. Logo deve pintar por aqui.
•Artistas plásticos do Rio Grande do Sul expõem em Londrina. Os trabalhos de Iran Machado Moreira, Liana Andrade, Elenice Corrêa e Sandra Zir podem ser vistos na Sala José Antonio Teodoro (Praça 1º de Maio, 110) até o próximo dia 11. Promoção da Secretaria de Cultura de Londrina.

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