NELSON AYRES COMANDA A OSP
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sábado, 27 de outubro de 2001
Zeca Corrêa Leite<br> De Curitiba 
O cancioneiro nacional vai invadir neste domingo a sessão matinal da Orquestra Sinfônica do Paraná. Saem de cena nomes habituais de mestres como Beethoven e Mozart, para dar vez a autores iluminados como Pixinguinha, Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Tom Jobim, Edu Lobo. A erudição popular brasileira está em alta. Pelo menos neste concerto que terá participações especiais de Glauco Solter (contrabaixo), Endrigo Bettega (bateria) e Mario Conde (guitarra e violão).
A proposta de colocar em cena a MPB - incluindo no programa Claude Debussy, Villa-Lobos e Astor Piazzolla - é do regente Nelson Ayres, que encerra o espetáculo com um frevo de sua autoria. Pelo desenho do repertório, o público que for ao Guairão vai ter um painel generoso do talento tupiniquim. Do choro ao frevo, são muitas as canções.
Nelson Ayres rege a OSP pela primeira vez. ''Está super divertido'', ele diz. O maestro que já dirigiu orquestras dentro e fora do Brasil - entre elas a Filarmônica de Israel, considerada uma das cinco melhores do mundo, que recentemente passou pelo País sob a regência de Zubin Mehta - abre-se para um programa pouco usual tendo em vista resultados futuros. É um mecanismo para atrair novas faixas de público.
Também não é nenhuma novidade colocar em tons sinfônicos a música popular. Isso acontecia no cotidiano das orquestras que trabalhavam nas grandes emissoras de rádio, décadas passadas. Ao mesmo tempo em que acompanhavam cantores, ensaiavam peças sinfônicas. Radamés Gnattali, Leo Peracchi, Guerra Peixe, Alceo Bocchino, Lindolpho Gaya, enfim, nomes de primeira grandeza, estavam à frente regendo galhardamente.
De origem jazzista, Ayres iniciou na carreira como pianista do conjunto Dixieland Band, na São Paulo dos anos 60. Do jazz mais tradicional, foi atraído para o contemporâneo e, logicamente, ao movimento da bossa-nova. Conquistou uma bolsa na famosa Berklee College of Music, de Boston, onde formou-se em regência. Foi o primeiro brasileiro a frequentá-la. Tocou e gravou com Astrud Gilberto, no auge da fama, Ron Carter, Walter Booker, Airto Moreira e Flora Purim, entre outros, na temporada americana.
Ayres é apaixonado pela nossa música, que ele afirma ser a melhor do mundo: ''Temos os ritmos mais diversos possíveis. Somos muito ricos, e isso fascina o mundo inteiro, infelizmente até hoje não soubemos aproveitar isso''.
A questão envolve política cultural, ou seja, depende da boa vontade do poder. Aí é que a situação piora. O País poderia ser representado pelo que tem de mais valioso, que é a música, mas seria preciso uma ''exportação cultural brava''. No entanto, quando ocorrem eventos envolvendo outros países, o Itamaraty contrata pianista erudito ''para mostrar que o Brasil também sabe tocar Chopin''. Ou, noutro extremo do mesmo patamar, manda grupos de mulatas - como do Sargentelli - ''para mostrar as cores brasileiras de um País tropical''.
Enquanto os eventos lançam mão de mulatas e recitais eruditos, a bossa-nova é tocada em todos os bares do mundo. ''Isso 40 anos depois. A música brasileira mais sólida poderia ser um produto de exportação, porque a música comercial se esvai em dois meses'', reflete Ayres. A nível interno, a situação pode não ser das melhores, mas é mais favorável que há 20 anos: ''Não sou contra os sertanejos e os pagodeiros porque na década de 70 e começo de 80 o que se ouvia no rádio era 'rockinho' americano de oitava categoria. Hoje, pelo menos, você liga o rádio e ouve música brasileira. Os músicos estão trabalhando, é a nossa língua, e por pior que a música seja, esteticamente , pelo menos somos nós''.
Nelson Ayres lançou nos anos 80 um LP antológico, ''Mantiqueira''. Nasceu clássico, fez a felicidade de quem ouviu e hoje é raridade em vinil. O disco saiu pela Som da Gente, gravadora de São Paulo que há anos está fechada. Ayres tentou negociar com os antigos proprietários os direitos do disco para poder lançar por outro selo. Não houve acerto. ''Eles não estão absolutamente interessados''.
Mesma sorte tiveram os discos do grupo Pau Brasil - conjunto de jazz moderno, aplaudido por multidão de fãs -, que foram produzidos pela Continental e Copacabana. ''As gravadoras não liberam os discos, nem estão interessadas em lançar, nem conversar a respeito de CD, de nada. Esse descaso é normal. É a história do Brasil'', desabafa o maestro.
Sem se dar por vencido, ele está de novo na ativa discográfica. ''Estou me autoproduzindo'', explica. Ou melhor, o conjunto o Nelson Ayres Trio (piano, baixo e bateria) começou a gravar e mais tarde será escolhido o selo. Uma coisa é certa: ''Espero que por março ou abril o CD esteja nas boas casas do ramo. É um disco de canções, basicamente. Tem algumas coisas minhas, 'Coração Vagabundo' de Caetano, 'Dindi' do Jobim. Algo despretensioso, de canções bonitas que achei por aí''.
Orquestra Sinfônica do Paraná toca música popular, sob a regência de Nelson Ayres. Hoje, às 10h30 no Guairão, em Curitiba. No programa, obras de Milton Nascimento (''Vera Cruz'', ''O Milagre dos Peixes''), Pixinguinha (''Carinhoso''), Villa-Lobos (''Nesta Rua, Nesta Rua''), Tom Jobim (''O Amor em Paz''), Edu Lobo (''Zanzibar'', ''Beatriz''), Paulinho da Viola (''Choro Negro''), Debussy (''Gollywog's Cakewalk''), Astor Piazzolla (''Fuga nº 9'') e Nelson Ayres (''Chiquito no Frevo''). Ingressos: R$ 5,00 e R$ 2,50 (estudantes).


