Mais de 500 adolescentes tiveram o privilégio de ouvir, ontem pela manhã, em Curitiba, a ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, Nélida Pinõn. Primeira mulher no mundo a exercer tal função, autora de 13 livros, professora na University of Miami e membro de dezenas de instituições literárias brasileiras e internacionais, a escritora falou de igual para igual com os jovens. O bate-papo literário foi promovido pelo Colégio Bom Jesus.
‘‘Eu estar aqui expressa uma nova realidade brasileira, de valorização da língua, colocando os jovens no centro das ocorrências nacionais’’, disse ela. Extremamente à vontade entre o público adolescente e otimista com o futuro literário, Nélida afirmou acreditar que a realidade brasileira esteja melhorando.
‘‘São pequenos sintomas que demonstram isto’’, disse. Entre eles, a escritora citou o crescimento do número de autores representativos em cada Estado brasileiro. ‘‘Não é mais preciso estar no eixo Rio/São Paulo’’.
Ela define os jovens dos anos 90 como uma geração menos hierarquizada, com mais tendência ao diálogo e com uma grande ‘‘delicadeza de sentimentos’’, que foge aos estereótipos. ‘‘Não sei como eles vêem a sociedade, mas mesmo que estejam alienados, a história é muito rápida e os seduzirá em pouco tempo’’, afirmou.
Uma de suas preocupações em relação a eles é sobre a saturação de informações, através dos meios de comunicação e informática. ‘‘O risco é que a informação passe a ter caráter frívolo, sem gerar consequências, sem residir dentro de cada jovem’’, disse ela.
Em sua opinião, uma das formas de reverter isto, tentando elevar os níveis de consciência entre os adolescentes, seria promover debates literários, como o que aconteceu ontem.
A estudante Maria Cláudia Hahe, 16 anos, era uma das integrantes da atenta platéia. ‘‘Gosto de ler uma média de dez livros por ano’’, disse. Apesar do interesse, a estudante confessou nunca ter lido nenhuma obra de Nélida. ‘‘Espero que na palestra ela nos fale sobre literatura e a Academia Brasileira de Letras’’.
Aos 61 anos de idade e numa excelente fase de sua carreira, Nélida lembra de quando começou a se interessar por literatura, bem antes de sua adolescência. ‘‘Eu tinha uns oito anos de idade quando já trocava correspondência com os críticos que escreviam para os jornais’’, conta. Na época, Nélida começava a frequentar o Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em busca de arte.
‘‘Eu era uma solitária’’, conta. Com uma eterna inquietação, a autora já vivia, desde os tempos de colégio, as crises criativas. ‘‘Sempre gostei das idéias que abalam, que motivam as crises oportunas. Aquelas que acentuam valores e ajudam a crescer’’.
Nélida confessa que seu maior medo é ter que viver uma vida sem emoções. ‘‘Cada livro deve ter uma mensagem forte e inevitável. Para escrevê-lo eu preciso apenas viver, ouvir as pulsações da vida’’, explicou.
Defensora da língua portuguesa, a autora fala com paixão sobre o idioma ‘‘onde todas as expressões podem ser traduzidas’’. Ela alerta os escritores sobre os cuidados que devem ser tomados para que o mercado não interfira no texto, diminuindo a liberdade de expressão. ‘‘Atualmente, muitas vezes o mercado tem escrito junto com o autor, o que não é bom’’.
Nélida citou José Saramago, escritor português que acabou de receber o Prêmio Nobel de Literatura, como exemplo de defensor da nossa língua. ‘‘Ele conquistou o prêmio sem nunca fazer concessões ao mercado, usando uma linguagem complexa’’.
Entre os muitos autores brasileiros que admira, Nélida lembrou Machado de Assis. ‘‘Um País que produziu um escritor como ele, nunca estará destinado ao fracasso, mas sempre ao sucesso’’, argumenta.Mauro FrassonA escritora Nélida Piñon fez uma palestra, ontem, para estudantes do Colégio Bom Jesus, em Curitiba: ‘‘Cada livro deve ter uma mensagem forte e inevitável.Em uma palestra para adolescentes, em Curitiba, a escritora Nélida Pi¤on, primeira mulher a ser presidente de uma Academia Nacional de Letras, detecta sinais de revalorização da língua portuguesa
‘‘Onde todas as
expressões podem
ser traduzidas’’.

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