Neil Gaiman diz tentar fugir de rótulos
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Marcos Flamínio<BR>Peres Folhapress 
Na boa tradição do gótico inglês do século 18, o escritor Neil Gaiman situa o cenário de Coraline em um casarão isolado e imponente no alto de uma colina. Lá vive, com o pai e a mãe, a heroína de sua graphic novel.
Entediada com as férias escolares, Coraline descobre uma porta na sala de visitas que dá para uma parede murada. Ela se abrirá e somente a ela para um mundo duplicado, onde reside uma versão do mal de seus pais: olhos costurados com botões, unhas enormes e aparência cadavérica.
Como o duplo é uma das imagens mais recorrentes na literatura romântica, a primeira pergunta ao escritor inglês, que falou à reportagem, recai sobre a influência desse movimento em sua obra.
Não sei! Hesito em rotular minhas obras porque essa não é a tarefa do artista. Sua tarefa é criar cabe aos outros rotular! Quando a gente acredita em rótulos, acredita que existem regras, naquilo que se deve ou não fazer. Algumas vezes me dizem que sou um neoclássico ou um pós-moderno, mas são apenas formas que encontram para descrever o que faço.
Persistente, o entrevistador tenta mais uma vez. Coraline lida com um mundo onírico, vetado aos adultos. Isso tem a ver com o surrealismo? Amo os surrealistas; sempre amei! Ufa!
E Gaiman prossegue: Quando era um garotinho, adorava os quadros de Dalí, e, mais tarde, descobriria André Breton [francês, autor do Manifesto Surrealista, de 1924, a bíblia do movimento]. Há momentos em Coraline que são puro surrealismo, em que a escrita se aproxima de um estado infantil.
É por isso que os sonhos são tão importantes em sua obra? (Sua série clássica, Sandman, é protagonizada justamente por Morfeu, a personificação dos sonhos). Sim, porque os usamos para representar tantas coisas... Mas, basicamente, duas: loucura, selvageria e também aspiração aquilo que gostaríamos de ser. Nos sentimos fracassados na vida real se não conseguimos preencher nossos sonhos. Se conversarmos com alguém cuja vida foi arruinada, lhe dirá: Eu costumava ter sonhos, mas deixei de tê-los!
Lembra-se de seus sonhos? Hoje, não! Mas era muito bom nisso quando escrevia Sandman. É de imaginar, então, que o autor inglês costume ler Freud... Não, embora pareça. Li um pouco no final da adolescência e aos vinte e poucos anos, quando pesquisava para Sandman.
Mas ele é importante para o senhor? O que resume Freud para mim está no comentário de Sandman. Na Casa de Bonecas [livro da série Sandman], Morfeu e Rose [Walker] estão voando lado a lado quando ela lhe diz: Você sabe o que Freud disse sobre o significado de voar, nos sonhos? Disse que, de fato, você está sonhando em fazer sexo. E Morfeu pergunta: Ok, mas então qual é o significado, em seu sonho, de fazer sexo?. E ela não tem resposta para isso.
SERVIÇO
Coraline
Autor Neil Gaiman
e P. Craig Russell
Editora Rocco
Tradução Regina
de Barros Carvalho
Quanto R$ 48, em
média (192 págs.)


