Nei Lopes lança "Sincopando o Breque" amanhã
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São Paulo, 15 (AE) - Estava dando aflição. "Essa coisa monotemática do neopagode não me deixava dormir", conta o compositor e cantor Nei Lopes. "O samba é mais rico do que as hitórias banais de amor que eles cantam", diz ele. "Falou-se sempre de tudo, em samba: de amor também, mas de novas tecnologias, de racismo, de adultério, de questões sociais, de tragédia - até do endoracismo como na música do Jorge Veiga em que a crioulinha negou-lhe a contradança" - e onde andam os temas?
Nei Lopes acha que a diversidade se perdeu nessa exacerbação do amor ou, no outro extremo da produção atual, no que chama de "bunda-lelê" - uma pobreza temática, melódica, rítmica, um afastamento profundo da tradição do samba e do quele traz de tradução de comportamentos, vivências.
Daí que ele resolveu fazer o seu disco. Indo buscar a diversidade temática, usando como chave o samba de breque, um gênero que, por algum motivo, está em extinção ("Eventualmente, desaprendeu-se como fazer samba de breque ou talvez esteja faltando talento; em todo caso, depois de Jorge Veiga e Moreira da Silva, é um gênero que o mercado não absorveu, e quem sabe fazer não faz porque não vai ser gravado".)
O resultado é "Sincopando o Breque", que será lançado amanhã (16), com show na choperia do Sesc Pompéia. São 14 sambas
mais da metade deles inédita, parcerias de Nei com João Nogueira (Baile no Elite), Maurício Tapajós (Ladrão de Galinha), Dauro do Salgueiro (Feição de Boboca), Rogério Rossini (A Neta de Madame Roquefort), Wilson Moreira (Você Sabia?), Zé Luiz (Caído com Elegância), Cláudio Jorge (Cara e Coroa, que tem também participação autoral de Zé Luís). Os outros sete são só de Nei.
Pelos títulos - e alguns dos sambas mencionados, como "Baile no Elite", foram grandes sucessos em outras vozes - percebe-se que os assuntos são muitos. "No Baile..." citado, a Orquestra Tabajara entusiasma o dançarino, que envergou o linho S-120, jaquetão, "para causar boa impressão" - mas era um sonho. "Samba na Medida" é uma encomenda ao mestre sambista Valter Alfaiate: "É que o Wilson Alicate, este coração materno/ Que vira o céu num inferno caso alguém lhe desacate/ Me deu hoje um xeque-mate, dizendo: Meu subalterno/ Pra enfrentar os teus combates mais bacana e mais moderno/ Tu tens que fazer um terno lá no Valter Alfaiate". Coisa de quem sabe usar o verbo.
"A Neta de Madame Roquefort" é uma brincadeira com o francês. Rima balé, "croché", forfait, chofer, couvert, modo de ser e saia godê com bufê, vestido de plissê - a mania "elegante" de uma certa Madame Roquefort, de mais de 80 anos, que usa o francês como distinção; a neta dela também não fala português: "É tudo rap, bodyboard, CD Rom e CD player/ Este País não é mesmo sério, já dizia um bom gaulês".
É sério, e vale também pela brincadeira. "A Neta de Madame Roquefort" foi um presente de Nei para sua mulher, Sônia
que ensina francês. Ele a conheceu num samba, no Morro do Pinto (aquele em que a Dina subiu e onde o Escurinho queria acabar com o samba). O assim dito clima rolou enquanto conversavam sobre literatura africana de expressão francesa.
Nei Lopes publicou oito livros sobre cultura afro-brasileira - é, certamente, mesmo fora do meio acadêmico, o grande estudioso dessa questão - e está empreendendo uma monumental "Enciclopédia Brasileira de Diáspora Africana", quase pronta, ainda sem editora. Um estudo que parte da áfrica para as Américas e estabelece as semelhanças e as diferenças - e analisa as causas das diferenças - entre as diversas manifestações religiosas e culturais, hoje cristalizadas, de origem africana, da Martinica à Bacia do Prata, do New Orleans a Salvador, de Porto Rico ao Rio de Janeiro, Cuba, Haiti, República Dominicana, Porto Rico.
É o trabalho de sua vida, embora o esforço mais sintomático tenha começado em 1995. O livro traz, também, biografias de grandes artistas negros, o que certamente vai causar alguma curiosidade - pois ele não pode, pelos padrões convencionados, dizer que a atriz Lúcia Veríssimo seja negra; mas seu pai, o músico Severino Filho, líder do conjunto "Os Cariocas", é negro. Severino é verbete - as questões que isso possa suscitar são amplas e esclarecedoras da formação da possível etnia brasileira.
Voltando ao disco: porque nenhuma música feita especialmente para ele? "Eu andei sem vontade de compor", conta o compositor. "É chato abrir a gaveta e ver a quantidade de inéditos - Paulinho da Viola diz que tem 700 sambas gravados e outros 700 desconhecidos". Não é um problema só de Paulinho ou só de Nei. Mas com o lançamento do disco, o autor de "Senhora Liberdade", "Goiabada Cascão", "Gostoso Veneno", "Candongueiro" - para citar algumas obras-primas - e a recentíssima Parsifal, música de Guinga, que Nei canta a duas vozes com Chico Buarque no novo disco do parceiro - começa a encarar de frente o silêncio. Samba de breque, para combatê-lo. (M.D.)