São Paulo, 31 (AE) - Um dos maiores bolsões de pobreza e violência do País, a Baixada Fluminense, no Rio, também produz boa música. O Negril é um desses casos. Há quase 20 anos na estrada, o grupo já alterou várias vezes a formação e o nome (antes se chamava KMD5) até que, em 1995, chegou aos atuais integrantes. Eles tocam reggae, não o puro reggae, de raiz, mas com umas boas pitadas de pop. O segundo disco do grupo, Negril, foi lançado há dois meses e vendeu 15 mil exemplares.
O resultado é um disco de belas melodias, um pop-reggae dançante, que lembra os bons tempos do Cidade Negra (que também surgiu na Baixada). Além do talento e da vontade dos seis integrantes da banda, o bom resultado do disco tem outra explicação. Herbert Vianna, líder dos Paralamas do Sucesso, se encantou com o som da rapaziada (e com as dificuldades que vinham enfrentando para sair do anonimato), resolveu apadrinhar a banda e produziu o disco.
A semana que passou foi especial para os integrantes do Negril. Na terça-feira, eles subiram ao palco da Tom Brasil para participar do projeto Novo Canto e tiveram Vianna ao seu lado, pela primeira vez, guitarra em punho e cantando com eles. "A apresentação foi tão curta que, no fim, eu fiquei parado, esperando mais", diz o vocalista do Negril, Valnei Ainê. O grupo abriu o show com Desejo, emendou com Berimbau e, em seguida, recebeu o padrinho, que tocou e cantou as faixas B.F. e Pense Bem, escrita por Vianna para o grupo.
O encontro com Herbert Vianna, há dois anos, definiu a vida do Negril. Acertada a parceria, o grupo foi apresentando as canções ao guitarrista. Durante um ano, eles fizeram e refizeram arranjos e letras. Vianna deu o recado de que não adiantaria repetir refrões contra a violência e a pobreza e apresentou a canção Pense Bem, uma balada romântica sobre um amor de infância. "Acho que não assumimos, mas, no fundo, somos românticos", diz o vocalista Ainê, ressaltando: "Mas não aquele romântico apelativo."
O primeiro clipe do Negril já está pronto e foi exibido pela MTV. Produzido pela Conspiração, do Rio, que já criou clipes de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Marisa Monte e Chico Buarque, o trabalho é inspirado na música de trabalho, Pense Bem.
Valnei Ainê define assim a carreira do grupo: "Somos músicos por vocação, não por profissão." É preciso explicar: de famílias de classe média baixa, nenhum dos integrantes do Negril podia dar-se ao luxo de dedicar-se integralmente à música. Por isso, as profissões eram outras. Valnei, Dida (guitarra) e Dikeu (percussão), por exemplo, trabalhavam com animação cultural em escolas públicas. Marcio Marrone (teclados) dava aulas de português para primeiro e segundo graus e Cosme Tchê (bateria) tocava na noite.
Vianna lembra que o baterista, Cosme, chegou a fazer uma letra escondido num pesque e pague, enquanto um tiroteio comia solto no terreno em frente. "O grupo tem disposição para tudo", afirma Vianna. "Eles carregavam seus equipamentos nas costas."
"A gente não tinha ninguém que nos apresentasse a uma gravadora", conta Valnei Ainê. "Tudo tinha de ser conquistado", continua, não em tom de lamento ou reclamação, mas com uma ponta de orgulho, de quem conquistou. Ou pelo menos recomeçou. E bem.

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