O Brasil, enquanto nação, possui em sua formação a cultura de três povos: a indígena, a européia e a africana. Cada uma delas traz, em suas tradições, universos mitológicos próprios que, com o tempo, passaram a fazer parte da vida brasileira.
Se por um lado, a mitologia – bem como contos e lendas – indígena e européia estão presentes nos livros de literatura infantil e infanto-juvenil, o mesmo não acontece com a história africana, ou afro-brasileira. Praticamente não existentem obras que apresentem às crianças o rico universo mitológico dos orixás, com suas lendas, deuses e heróis.
Talvez esta inexplicável lacuna literária esteja com os dias contados. Isso é o que mostra ‘‘Ogum, o Rei de Muitas Faces e Outras Histórias dos Orixás’’, livro que a Editora Cia. Das Letras acaba de publicar. Escrito por Lidia Chaib e Elizabeth Rodrigues, a obra traz as lendas dos orixás (divindades) do candomblé afro-brasileiro recontadas em forma de pequenas histórias.
As autoras partem da criação do mundo e dos homens segundo as lendas iorubás para, em seguida, contarem a história do nascimento de desenvolvimento dos principais orixás – entre eles Ogum, Exu, Oxóssi, Obaluaiê, Oxumarê, Ossaim Xangô, Oxum, Iansã, Iemanjá, Obá, Nanã, Ifá e Oxalá.
Nas tradições africanas o mundo tem origem no espreguiçar de Orum, o deus supremo. Ao espreguiçar, criou a água. Juntando seu hálito com a água, criou a lama. A criação dos seres vivos coube a Oxalá, o primeiro orixá nascido com a água. Oxalá modelou, com barro, os animais, as aves, peixes, plantas e o próprio homem. A origem da diferenças físicas entre os homens é narrado da seguinte forma: ‘‘Enquanto modelava os homens, Oxalá, escondido, bebia vinho de palma. Ficava embriagado e errava na medida. Por isso, os homens saíram de muitos tipos e tamanhos, e outros sem cor, pois ele os tirava do forno antes da hora.’’ -
A mitologia dos deuses e santos afro-brasileiros está totalmente pautada em elementos naturais. Cada orixá está relacionado a um elemento no qual exerce seus poderes. As história presentes no livro, ilustrado por Miadaira, mostra como cada um deles ficou atrelado a uma força da natureza – e como mal e o bem coexistem no mesmo espaço.
‘‘Ogum, o Rei de Muitas Faces e Outras Histórias dos Orixás’’ é uma obra completa. Além de contar lendas dos deuses africanos iorubás, traz informações que complementam o assunto. Apresenta o candomblé como uma religião afro-brasileira e descreve as principais características dos orixás. Fala sobre a história do continente africano e de seus diferentes povos. Mostra a vida dos negros trazidos para o Brasil como escravos, no período do colonialismo português. Revela ainda como as religiões dos povos africanos foram proibidas no Brasil durante séculos, deixando de ser reprimidas somente em 1976.Acima de tudo, sugere que as divindades africanas possuem características diferentes de deuses da cultura européia e, ao mesmo tempo apresenta elementos semelhantes aos deuses indígenas – fato que pode ter gerado preconceito em relação às religiões afros.
•‘‘Ogum, O Rei de Muitas Faces e Outras Histórias dos Orixás’’. Histórias recontadas por Lidia Chaib e Elizabeth Rodrigues, pesquisa de Marta Suely, ilustrações de Miadaira, Editora Cia. Das Letras, 80 páginas, R$ 24,00.

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