Negras brumas em silenciosos movimentos
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 30 de janeiro de 2019
Marcos Losnak <br> Especial para Folha 2 
Algumas doenças são visíveis. Possuem sintomas claros e objetivos, podem até ser tocadas com as mãos. Outras doenças são visíveis. Por não possuírem sintomas palpáveis, se esvaem pelos dedos. Por serem voláteis, fogem dos olhos. Brumas negras em constante movimento.
Algumas doenças cabem dentro de uma caixa específica. Outras não. Algumas doenças cabem em milhares de caixas diferentes. Para o escritor norte-americano Andrew Solomon, a depressão é uma das doenças que possuem milhares de faces e não deve ser confinada numa única caixa.

Andrew Solomon se tornou uma referência mundial sobre o assunto quando publicou, em 2001, o livro "O Demônio do Meio-Dia - Uma Anatomia da Depressão". A obra não trazia apenas uma leitura científica da doença, mas uma leitura principalmente humana. Após colher depoimentos de centenas de pessoas diagnosticadas com a doença, chegou a conclusão de que cada depressão possui características individuais. Cada caso é um caso único. As generalizações são apenas uma tentativa de sistematizar estudos e pesquisas.
O livro ganhou sua primeira edição brasileira em 2008 e agora acaba de receber uma nova edição lançada pela editora Companhia das Letras. Um dos grandes diferenciais da obra está no fato de ser uma investigação sobre a depressão realizada por um deprimido. Diagnosticado com a doença, Andrew Solomon utiliza a própria experiência com a depressão, e a batalha por um tratamento adequado, como componente determinante da obra.
"O Demônio do Meio-Dia" traz duas perspectivas que se cruzam, a do lado de fora e a do lado de dentro. De um lado a perspectiva da ciência, de outro a perspectiva do doente. O próprio autor, como doente, descreve sua condição com as seguintes palavras: "Tenho uma doença mental, diagnosticada há quase metade da minha vida, e não posso mais me imaginar sem ela. Parece menos alguma coisa que me aconteceu do que uma parte de quem eu sou; alguns dias, é 'a' coisa que me define, mas é sempre pelo menos 'uma' coisa que me define."
A procura por uma definição de depressão percorre caixas e mais caixas de tamanhos e formas diferentes. Para definir umas delas, o autor utiliza a seguinte abordagem: "A depressão é a imperfeição do amor. Para poder amar, temos que ser capazes de nos desesperarmos ante as perdas, e a depressão é o mecanismo desse desespero. Quando ela chega, destrói o indivíduo e finalmente ofusca sua capacidade de dar e receber afeição. Ela é a solidão dentro de nós que se torna manifesta e destrói não apenas a conexão com outros, mas também a capacidade se estar em paz consigo mesmo. Embora não previna contra a depressão, o amor é o que tranquiliza a mente e a protege de si mesa. Medicamentos e psicoterapia podem renovar essa proteção, tornando mais fácil amar e ser amado, e é por isso que funcionam. Quando estão bem, certas pessoas amam a si mesmas, algumas amam a outros, há quem ame o trabalho e quem ame a Deus: qualquer uma dessas paixões pode oferecer o sentido vital de propósito, que é o oposto da depressão. O amor nos abandona de tempos em tempos, e nós abandonamos o amor. Na depressão, a falta de significado de cada empreendimento e de cada emoção, a falta de significado da própria vida se tornam evidentes. O único sentimento que resta nesse estado despido de amor é a insignificância."
A editora Companhia das Letras também acaba de lançar o livro mais recente de Andrew Solomon, "Um Crime da Solidão - Reflexões Sobre o Suicídio". O volume reúne nove artigos sobre a morte voluntária impulsionada pela depressão. Aborda o suicídio de poetas e escritores como Sylvia Plath, Virginia Woolf e David Foster Wallace. Também aborda o suicídio recente de personalidades como Anthony Bourdain, Kate Spade e Robin Williams.
Fragmento
Biologia não é destino. Há maneiras de levar uma boa vida com depressão. De fato, pessoal que aprendem com sua depressão pode desenvolver uma profundidade moral que é o troféu no fundo da caixa de tristezas. Há um espectro emocional básico do qual não podemos e não devemos escapar, e acredito que a depressão se inclua nesse espectro, perto não apenas da dor, mas também do amor. De fato, acredito que as emoções fortes ficam juntas, e que cada uma delas está intrinsecamente ligada ao que comumente pesamos como seu oposto. No momento tenho conseguido conter a incapacitação que a depressão causa, a depressão em si vive para sempre a escrita cifrada de meu cérebro. É parte de mim. Travar uma guerra contra a depressão é lutar contra si mesmo, e é importante saber disso antes das batalhas.
(Fragmento de "O Demônio do Meio-Dia - Uma Anatomia da Depressão", de Andrew Solomon)
Serviço:

"O Demônio do Meio-Dia - Uma Anatomia da Depressão"
Autor - Andrew Solomon
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Myriam Campello
Páginas - 584
Quanto - R$ 64,90

"Um Crime da Solidão - Reflexões Sobre o Suicídio"
Autor - Andrew Solomon
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Berilo Vargas
Páginas - 112
Quanto - R$ 39,90


