Néctar dos deuses
PUBLICAÇÃO
domingo, 12 de janeiro de 1997
Luciane Tonon 
Correspondente
Quem disse que vinho é bebida de inverno? O enólogo (especialista em vinho), Nelson Borges, de Cornélio Procópio (Norte do Paraná), dá algumas sugestões de como saborear o vinho num calor de 36 graus do verão brasileiro.
Além de ser uma ótima bebida para festas, o vinho no verão pode ser um grande companheiro de pratos típicos do mar e de sobremesas. O vinho branco ou champagne (rei dos vinhos) são os ideais para a estação. Eles precisam estar resfriados a uma temperatura de 4 graus, mas fora do congelador, recomenda Borges.
Segundo ele, nunca se deve colocar gelo dentro das taças de vinho e sim a garrafa dentro de um balde de gelo. O gelo tira a vida do vinho. Vida? Isso mesmo o vinho tem vida. Ele tem corpo que deve ser contemplado; tem som, que deve ser ouvido; tem bouquet (conjunto de aromas) que deve ser cheirado. Enfim, ele deve ser apalpado com a língua antes de ser ingerido, explica o enólogo.
Para apreciar a vida do vinho, é necessário bebê-lo em copos transparentes. Em noites quentes, nada melhor do que apreciar uma taça de vinho branco transpirando. Além de matar a sede, é extremamente insinuante.
O vinho, de acordo com Borges, não é bebida e sim alimento: possui ferro, vitaminas B e C, minerais complementares na alimentação, sendo inclusive recomendado para casos de anemia profunda.
Borges garante que quem toma um cálice de vinho por dia pode ter sua saúde prolongada. Após alguns estudos, chegou-se à conclusão de que o vinho é altamente vaso dilatador, recomendado para quem tem problemas cardíacos. É bom para colesterol e até mesmo para emagrecer, quando a obesidade é proveniente de ansiedade. O vinho é relaxante e indutor de sono, portanto não recomendado para noite de núpcias.
Como surgiu A história do vinho se confunde com a história da humanidade pelo fato de a bebida ter poder de auto-produção. Se vários cachos de uvas ficarem empilhados por algum tempo, a própria natureza se encarrega de escorrer o suco da fruta e fermentar. Era assim que os primitivos faziam, até serem desenvolvidas as técnicas de produção da bebida, conta Borges.
Em toda a história, desde a formação da Terra, ouve-se falar em vinho. Noé (construtor da arca) tomou um pileque de vinho e andou nu; o primeiro milagre de Jesus foi transformar água em vinho; e assim vários reinados tiveram o vinho como a bebida principal. O vinho se tornou um produto de civilização. O tempo é quem faz sua qualidade.
No Brasil, a bebida chegou em 1860, com a imigração italiana para o Vale dos Sinos. Porém, o vinho o Brasil ainda é uma criança. Para chegar à qualidade ideal, é preciso dois mil anos, afirma Borges, que estuda sobre vinho desde 1974.
O vinho é a segunda bebida mais consumida no mundo, perdendo somente para água. Foi do vinho que surgiu outras bebidas como a Champagne por exemplo. Conta a lenda que em 1668, um monge beneditino de nome Dom Pierre Perignon, depois de algumas experiências com a fermentação de vinhos, exclamou: Venham ver, estou bebendo estrelas. Champagne nada mais é do que vinho de dupla fermentação. A primeira nos tonéis de carvalho e a segunda na própria garrafa. Champagne é o vinho mais bem cuidado do mundo, garante Borges.
O bom vinho precisa ficar descansando pelo menos cinco anos em tonéis de carvalho. O que é inviável no Brasil pela necessidade de venda. É difícil alguém se propor a investir num negócio que tenha que esperar cinco anos para lucrar, analisa o enólogo.
ReproduçãoAlguns tipos de queijos pedem vinho tinto; outros, branco
COMBINAÇÕES HARMÔNICAS
Algumas combinações harmônicas entre vinhos e pratos podem fazer melhor a ocasião. Aproveite também para escolher a opção ideal para o verão:
q Ostras, salmão defumado e frutos do mar - vinho branco seco ou champagne Brut. Ainda: Madeira ou Xerez secos. À temperatura de 4 graus, faz a combinação ideal para verão. Pratos à base de peixes são altamente digestivos e proporcionam bem-estar.
q Massas - pratos à base de arroz ou farinha de cereais, q Pizzas e macarrão - vinho tinto
q Carnes brancas, de porco, veado ou galinha - vinho tinto leve.
q Carnes de gado, carneiro ou caça em geral - vinho tinto seco
q Presunto, fígado, rins, salchichas e outros miúdos - vinho tinto.
q Aves: frango e peru - branco ou tinto
q Pato, marreco, perdiz ou codorna - vinho tinto
q Queijos suaves - vinho tinto italiano
q Queijos fortes - vinho tinto forte
q Queijo suiço - vinho branco forte
q Percorisio e provolone - vinhos tintos de Toscana
q Fondue - vinho suiço branco.
q Pratos à base de ovos - vinho tinto leve
q Sopas - vinho madeira ou Xerez
q Sobremesas: Morango, cereja, pêssego, doces de massas e creme - vinho branco doce ou champagne (Sauternes, Barsac, Tokay, Porto, Madeira e Marsala). Ótimos vinhos para o mês de janeiro a serem bebidos fora dos horários de refeições. De preferência no fim de tarde.
Luiz OliveiraNelson Borges: O vinho tem corpo que deve ser contemplado; tem som, que deve ser ouvido; tem bouquet, que deve ser cheirado
Saiba que...
O teor alcoólico ideal de um vinho deve se situar entre 10 e 13 graus. Variam, entretanto, entre 8 e 18 graus os tintos e entre 9 e 13 graus os brancos.
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Nunca se deve beber vinho sozinho. Não é hábito solitário.
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Vinho tinto não se toma em pé. Sempre sentado em respeito à refeição que vai acompanhar o vinho. Os outros (branco, rose e champagne) podem ser tomados em pé.
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Nunca se deve perguntar a uma dama que vinho deseja, se não se tem certeza de que ela conhece vinhos.
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Encha apenas um terço do copo. Menos é sovinice, mais é grosseria.
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O vinagre é inimigo número um do vinho, razão por que, em princípio, nunca acompanha saladas.
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Os frutos do mar só admitem acompanhamento de vinho tinto quando ele entra na composição do prato. Caso contrário, serão sempre acompanhados de vinho branco ou champagne, com exceção do bacalhau, que exige vinho tinto.
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Os vinhos tintos proíbem ainda: molho branco, molho madeira, queijo branco e sobremesa.
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Antes do primeiro gole, prepare a boca neutralizando o paladar com pão ou queijo.
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Os vinhos tintos de qualidade devem ser abertos de 30 a 60 minutos antes de serem bebidos, para que o líquido entre em contato com o ar e possa respirar.
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Nunca deixe restos de um bom vinho no copo quando os pratos são mudados ou ao sair da mesa, principalmente se você for o convidado. Parecerá ignorância ou desconsideração. Lembre-se: garrafa aberta, garrafa consumida.
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Não se pega o copo sem ser pela aste. O vinho não pode sentir o calor das mãos (isso é para o conhaque, que precisa ser aquecido).
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Em 1977, uma garrafa de Château Lafitte Rotschild, safra 1806, foi arrematada no 8º leilão dos grandes vinhos po U$ 18 mil. O recorde mundial, no entanto, pertence a um comerciante de Syracuse que, em um leilão em Chicago, arrematou uma garrafa do mesmo vinho por U$ 62 mil.
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Não é a marca do vinho que dá status; é a maneira de enxugar a boca.
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Uma parreira atinge 30% de sua capacidade de produção em três anos; 60% a 80% no quarto ano e 100% o quinto ano.
Os melhores do mundo
Apaixonado por vinho há 22 anos, Nelson Borges se considera um enófilo (amigo do vinho). Ele coleciona uma biblioteca de 30 volumes sobre vinho e mantém uma adega preparada para 3.500 garrafas. Com sua experiência, sugere os melhores vinhos do mundo:
Na Argentina, o melhor vinho tinto é o Navarro Correa e o branco o Weinert. Na Alemanha, a classificação do tinto vai para Bernkasteler Docktor. E o branco recomendado especialmente no verão, para final de tarde, e acompanhando doces, a medalha de ouro vai para os vinhos de qualidade com predicado Qualittswein mit Preddikat.
Em ordem alfabética, segue o Brasil com o Vinho Velho do Museu (tinto) e o Gewurztraminer (branco), ambos produzidos no Rio Grande do Sul. Já a Califórnia reserva os melhores vinhos produzidos no Vale do Napa. Nelson Borges cita o Almaden (tinto) e o Sauvignon blanc (branco).
Os melhores vinhos chilenos são tintos, do Vale do Maipo; entre eles Curimon e Maximiano. A Espanha, por sua vez, reserva o tinto Vega Sicilia. Já a Itália leva ao pódium o tinto Brunello. De Portugal, os melhores são os tintos Frei João e Barca Velha.
A França, por sua excelência, produz os cinco melhores vinhos tintos do mundo: Château Lafitte Rothschild; Château Margaux; Château La Tour; Château Haut-Brion e Château Mouton Rothschild. O Château DYquem é o melhor vinho branco suave ideal para acompanhar sobremesas.


