São Paulo, 03 (AE) - Neal Gabler sabe que se expõe a críticas, mas não hesita em apontar o que lhe parece o fenômeno mais importante do fim do milênio: a substituição das ideologias tradicionais pelo verdadeiro culto da celebridade que, dos Estados Unidos, avança sobre o mundo todo. Gabler é um intelectual respeitado na América. Assina resenhas para jornais importantes, é autor de "A Empire of Their Own: How the Jews Invented Hollywood". Gabler também é o autor de "Vida - O Filme" (Companhia das Letras, 280 págs., R$ 28,50). O subtítulo diz tudo sobre as intenções do autor: "Como o Entretenimento Conquistou a Realidade". Gabler quer mostrar que, cada vez mais
a ficção tem de competir com as histórias da vida real.
Numa entrevista por telefone, ele esclarece que não se trata de repetir o clichê de que a vida imita a arte, se bem que
ressalta, "há um fundo de verdade nisso". Nem é dizer que a arte inventou seus métodos artísticos e inverteu o processo - a arte imita a vida, "ainda que isso também seja verdade", faz outra ressalva. A questão é outra, diz Gabler. O que verdadeiramente caracteriza esse processo é o fato de o Homo sapiens estar transformando-se no homo scaenicus - o homem-artista. Exemplos não faltam para que ele prove sua tese. Agora mesmo, Warren Beatty está postulando sua indicação para concorrer à Presidência dos Estados Unidos.
"Num passado recente, tivemos o caso de um presidente vindo de Hollywood, Ronald Reagan; Beatty quer provar que uma repetição do fenômeno é possível". Qual é a qualificação de Beatty para ser presidente, pergunta Gabler? "Ele não é político profissional nem possui um projeto para o país". Beatty tem a seu favor o carisma de astro de Hollywood e a disposição de ser uma alternativa de esquerda, já que Reagan era claramente uma alternativa de direita. Ao contrário do que comumente se anuncia, essas definições ainda não perderam o significado, observa Gabler.
"Todo o mundo sabe o que é esquerda ou direita, mesmo num país tão intensamente apolítico, como os Estados Unidos". Ele lembra que Philip Roth foi o primeiro a chamar a atenção sobre o que estava ocorrendo. Em 1960, o autor de "O Complexo de Portnoy" levantou uma questão que, na época, não parecia tão pertinente, mas hoje é fundamental. Quais as chances de a ficção poder continuar competindo com as histórias da vida real? Gabler pede um minuto e volta ao telefone com a citação de Roth: "Está aqui: o escritor norte-americano da metade do século 20 dá um duro danado para tentar entender, depois descrever e, em seguida
tornar crível boa parte da realidade americana".
E Gabler segue citando Roth: "A realidade bestifica, enoja, enfurece e acaba sendo uma espécie de constrangimento à parca imaginação do autor; nossos talentos são superados pela atualidade e a cultura produz quase todo o dia dados de fazer inveja a qualquer romancista". Encenação - Gabler observa que Roth não foi o único a perceber o fenômeno. Quase na mesma época, o historiador Daniel Boorstin, em seu estudo pioneiro intitulado "The Image: A Guide to Pseudo-Events in America", dizia que, por todos os lados, o fabricado, o inautêntico e o teatral estavam expulsando da vida o natural, o genuíno e o espontâneo, a tal ponto que a própria realidade estava convertendo-se numa encenação. "Ele percebeu que os Estados Unidos estavam a ponto de tornar-se o primeiro povo da história a ser capaz de fazer suas ilusões tão convincentes e realistas que até podemos viver nelas".
"Pois bem, os temores de Boorsin acabaram por concretizar-se", diz Gabler. "Não sei como é no Brasil e nem falo pela Europa, embora esteja convencido de que se trata de um fenômeno mais ou menos universal, mas nos Estados Unidos o entretenimento invadiu a realidade". Pense na Guerra do Golfo, na vida e morte da princesa Diana, em Monica Lewinsky e o charuto do presidente Bill Clinton, no julgamento de O.J. Simpson ou em Elizabeth Taylor, que "transformou sua vida pessoal, cheia de romances e doenças, em algo que supera, para o público, qualquer uma de suas interpretações na tela".
É justamente essa a questão: "A própria vida transformou-se num veículo de comunicação, como a televisão, o rádio, a imprensa e o cinema, e todos nós nos tornamos ao mesmo tempo atores e platéia de um espetáculo muitas vezes mais rico, complexo e fascinante do que qualquer coisa concebida para os veículos de comunicação convencionais". Gabler volta a Roth para afirmar que a vida acabou por transformar-se mesmo num filme.
O cinema contribuiu para isso, o desenvolvimento da fotografia na imprensa que antes era só escrita, também. Criaram uma mitologia da imagem. "Já estamos naquele futuro referido por Andy Warhol, que dizia que um dia todos teríamos nossos 15 minutos de fama", lembra Gabler. Ele cita o caso emblemático. "Até chegar ao Dakota, o assassino de John Lennon ainda não estava certo de que lhe pediria um autógrafo ou dispararia seu revólver". Se tivesse pedido o autógrafo, Mark Chapman teria permanecido anônimo. Atirando, virou protagonista do filme da vida.
Nunca se lavou tanta roupa suja em público. Há mesmo revistas e programas de televisão especializados em mostrar pessoas anônimas ou celebridades, não importa, dispostas a revelar um segredo, de preferência bem sórdido. "Os anônimos ficam famosos e ganham seus minutos de celebridade, os que já são famosos viram mitos, como se fosse uma grande coisa", observa Gabler. Nossa necessidade de espetáculo é tão grande que a Guerra do Golfo virou na TV uma fantasia hollywoodiana carregada de efeitos. Nossa fome por escândalo é tão intensa que
Gabler lembra, uma das juradas do caso O.J. Simpson virou musa e até posou nua para a "Playboy".
A aplicação deliberada de técnicas teatrais em política, religião, educação, literatura, comércio, guerra, crime, em tudo
enfim, converteu-os todos em ramos da indústria do entretenimento, na qual o objetivo supremo é ganhar e satisfazer uma audiência. Existem sites na Internet explorando a intimidade de pessoas anônimas e Timothy Leary, outrora defensor de alucinógenos, usou uma página da Web para fazer um relato detalhado da deterioração do seu organismo, provocada por um câncer da próstata. Gabler aproveita para dizer que o fenômeno já foi satirizado por Hollywood (O Show de Truman, o Show da Vida, de Peter Weir). Ele não vê perspectiva de mudança para o futuro.
Critica a imprensa americana por ser conivente demais com o fenômeno e até contribuir para ele, muitas vezes por pressões de anunciantes e do próprio público, dentro daquilo que se chama de concorrência. Se Beatty chegar a presidente, outro capítulo dessa história estará sendo escrito. O filme da vida seguirá em cartaz com ampla aceitação - dos atores e sua platéia.