Né Ladeiras, Os Quadrilhas da Fumaça e Antônio Nóbrega fazem shows em SP
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quinta-feira, 04 de fevereiro de 1999
Por Mauro Dias 
São Paulo, 04 (AE) - Trasmontanos, luizenses, pernambucanos. Né Ladeiras, Os Quadrilhas da Fumaça, Antônio Nóbrega. Inflexões diversas da mesma língua portuguesa, manifestações diferentes de uma mesma matriz musical a que o tempo e certas injunções específicas dotaram de singularidade.
Traduzem a diversidade três espetáculos em cartaz no fim de semana. A cantora portuguesa Né Ladeiras vai cantar músicas de seus discos "Traz os Montes" (nós escreveríamos Trás-os-Montes) e "Todo Este Céu", infelizmente não disponíveis no Brasil. Terá como convidado o compositor paraibano Chico César.
Os Quadrilhas da Fumaça são uma banda, de vozes, metais e tambores, que tocam e cantam a música do carnaval e do São João da cidade de São Luiz do Paraitinga, que fica na Serra do Mar, a meio caminho entre Taubaté e Ubatuba.
Antônio Nóbrega, acompanhado por grande orquestra de sopros, vai cantar e dançar - e fazer cantar e dançar - os frevos, baiões, maracatus e marchas do carnaval pernambucano.
Né Ladeiras ouve, nos sons do nordeste português, Trás-os- Montes, parentesco com a música paraibana de Chico César, com quem já cantou, em outras oportunidades. Tradições centro-européias, fenícias, gregas, mouras, africanas entram na composição de uma música e da outra. Cantarão juntos peças de autoria dele e do repertório dela, em busca dos pontos de contato e divergência.
As músicas do CD "Traz os Montes" são cantadas em mirandês, falado na região de Miranda do Douro, menos um dialeto do que uma variação do português - no ano passado, o mirandês foi reconhecido oficialmente como língua e já é ensinado nas escolas, tem livros publicados; é falado desde antes de Portugal tornar-se o Portugal que conhecemos.
O mirandês cristalizou-se no século 18; a região é a mesma - só que em território português - da área que falava o lionês e à qual Castela quis impor o espanhol. Os rebelados do lado da Espanha falam o catalão, o galego e o basco. Do nosso lado, em Portugal, fala-se o mirandês.
Né Ladeiras é uma das grandes artistas modernas portuguesas, cantora de belíssima voz e propósitos seriíssimos - o que não exclui de sua arte e fala o bom humor e a alegria. Por artistas como ela é que o mundo está sabendo que sua terra não é apenas a terra do fado e das chulas, mas de rica diversidade cultural, um mundo ainda a ser descoberto (mais uma vez se desenha o paralelismo com Chico César). A lamentar, apenas o fato de ser apresentação pública única, amanhã (05) na Casa de Portugal. No sábado haverá outra, mas particular, fechada, na sede da Portuguesa.
São Luiz do Paraitinga é uma pequena e lindíssima cidade situada praticamente dentro do Parque da Serra do Mar. Mantém-se lá a imensa tradição das festas religiosas afro-brasileiras (Divino, Folia de Reis) e de um carnaval de rua que envolve toda a população urbana, de cerca de 5 mil habitantes, e atrai quatro vezes esse número de visitantes.
A cada carnaval se constroem bonecos, que enfeitam as ruas e desfilam nos mais de 20 blocos que vãos às ruas, compõem-se músicas, criam-se fantasias. Um dos blocos luizenses mais tradicionais, o Bloco do Lençol, estará puxando o grito de carnaval do Sesc Santo Amaro, a partir das 15 horas. A programação, que segue até o dia 16 inclui oficinas de fantasias, adereços, danças populares, percussão, composição. No sábado, em dois horários, às 9 e às 14 horas, haverá show da banda Os Quadrilhas da Fumaça, com músicas do carnaval e de outras festas de São Luiz. No domingo não haverá atividade. As oficinas voltam na segunda-feira.
Antônio Nóbrega lança, na quadra do Sesc Ipiranga, o disco "Pernambuco Falando para o Mundo", músicas de um outro carnaval de rua tradicional. Os espetáculos (começaram a ser apresentados hojee seguem em cartaz até domingo) serão na quadra para que a platéia possa cantar e dançar. A programação do Sesc Ipiranga inclui também oficinas de danças populares e de arranjo de frevo.
O título de disco de Nóbrega repete o slogan, criado nos anos 40, da Rádio Jornal do Comércio, do Recife, que tinha um sinal poderosíssimo e alcançava pontos distantes do País. Essa é a alusão imediata. A outra alusão coincide com a de Né Ladeiras: pelas cantigas de roda, pelo frevo "Vassourinhas", pelo baião "Pau-de- Arara" revela-se para fora de seu limite geográfico a música particular de Pernambuco; fala com o carnaval paulistano o carnaval do Recife. Encontra-se com os versos de Miranda os bordões de Olinda, regidos pelo mesmo espírito, a história comum. SERVIÇO Antônio Nóbrega. Sexta e sábado, às 21 horas; domingo, às 20 horas. R$ 10,00. Sesc Ipiranga. Rua Bom Pastor, 822, tel. 3340-2000.Até domingo. Né Ladeiras. Sexta, às 21 horas. R$ 10,00. Casa de Portugal. Avenida Liberdade, 602, tel. 279-5166. Patrocínio: Banco Bandeirantes, Grupo Caixa Geral de Depósitos. Apoio: Cervejaria Cintra Sesc Cai e Pira na Folia de São Luiz do Paraitinga. Exposição de adereços de carnaval do artista Benito Campos e fotografias de Milton Dines, de segunda a sábado, das 9 às 18 horas; oficina de fantasia e adereços, de quarta a sábado, às 9 e 14 horas; oficina de composição, quarta e quinta, às 13 horas; animação de rua com marionetes, quinta e sexta, às 15 horas; apresentação do Bloco do Lençol e Os Quadrilhas da Fumaça, sábado, às 15 horas. Grátis. Sesc Santo Amaro. Rua Amador Bueno, 505. Até 16/2


