Navegando o João de Tiba
Quando se atravessa o rio João de Tiba, em Santa Cruz Cabrália, tem-se a certeza de deixar para trás o som eletrizante das barracas de praia, o burburinho dos shoppings de Porto Seguro e as aulas alucinantes de lambaeróbica na praia. O cenário é bucólico e nos povoados de Santo André, Santo Antônio e Guaiu reina a paz e a tranquilidade.
A foz do rio João de Tiba faz o limite ao Sul da APA Santo Antônio, entre os municípios de Santa Cruz Cabrália e Belmonte. Longe do agito que caracteriza os principais points da Costa do Descobrimento, Santo Antônio, com 25 mil hectares, destaca-se pelas suas praias virgens ou pouco frequentadas, e imensa quantidade do verde que vem do manguezal quase intocado, áreas de restinga e Mata Atlântica, e pela presença de uma gente tranquila e hospitaleira que gosta de ouvir o canto dos pássaros e o som das ondas.
Antes de chegar ao paraíso protegido vale subir até a Cidade Alta de Santa Cruz Cabrália, onde começou o povoamento da atual sede do município. O local oferece uma visão panorâmica: em primeiro plano, no sopé do morro, a cidade de Santa Cruz Cabrália; à esquerda, a Coroa Vermelha; à direita, o início da APA Santo Antônio tendo em primeiro plano a foz do rio João de Tiba com suas ilhas recobertas pelo manguezal, o quebra-mar natural - que acompanha o rio até a foz separando a água doce da salgada - e, ao longe, a Coroa Alta, um imenso banco de areia em alto mar que é visitado por dezenas de escunas diariamente.
A tranquilidade das águas na foz do rio João de Tiba, protegida por mais de um quilômetro de recifes, propicia a prática de esportes náuticos. Santo André é o primeiro povoado localizado dentro da APA, na margem esquerda do rio João de Tiba, onde a vila acompanha o rio até a foz.
Arquivo FolhaRoda de capoeira: atraçãoAntiga vila de pescadores, Santo André mantém uma aparência rústica e sofisticada, com ruas de chão batido e cercas vivas sempre floridas. As pousadas à beira mar e em meio a uma vegetação de muitas árvores frutíferas, oferecem (a maioria) caiaque e windsurf a seus hóspedes e promovem luaus. Os restaurantes Berimbau e Gravatá recebem os turistas para o almoço, quando retornam do passeio à Coroa Alta, ambos oferecem como atrativo na atracação e desembarque, uma passarela de madeira sobre o mangue.
Quando voltam do passeio de escuna à Coroa Alta os turistas têm como parada obrigatória a ilha Paraíso, a maior na foz do rio João de Tiba. Aí, a família do Seo Dermeval e Dona Ivone recebem seus visitantes com nada menos que 60 tipos de doces caseiros e típicos da região. Difícil é escolher qual saborear e, mais difícil ainda é deixar a ilha sem levar uma lembrança do Paraíso: doces já embalados para viagem, artesanatos diversos, um passeio pelo pequeno manguezal ou pelo lamarão - praia de areia que só aparece na maré baixa -, ou ainda uma foto no coqueiro erótico.
Desde 1946 o Seo Dermeval ganhou a ilha Paraíso de presente do pai. No início a família viva da pesca e da coleta do caranguejo. Com o incremento do turismo na região, começou a receber escunas, primeiro como ponto de apoio para almoço; em seguida, com o surgimento de restaurantes concorrentes em terra firme, a ilha transformou-se num paraíso de doces que hoje são o sustento da família.
No verão chegam a desembarcar 700 turistas por dia. Enquanto assistem uma apresentação do grupo de capoeira de um dos filhos do Seo Dermeval, os visitantes saboreiam cocadas de forno, banana, maracujá, chocolate, cereja, jenipapo, abacaxi, leite, branca, preta e morena; tortas de limão, coco, baba de moça, floresta negra, sonho de valsa, banana com maçã e baiana; pudim de leite condensado, tapioca, coco e chocolate; quindim de coco, beijo de coco, goiaba, mangaba, cacau, graviola, cajá, umbu, chocolate, abacaxi, maracujá e peitinho de moça, cajuzinho, pavê de creme de leite e manjar dos deuses.
A Associação Pró Turismo de Santa Cruz Cabrália promove passeios diferenciados subindo o rio João de Tiba com barcos pequenos para penetrar no manguezal. O barco sobe o rio por cerca de 40 minutos até uma antiga passagem dos índios, passando por fazendas de piaçava; rio acima, já no afluente rio Mutum, é possível conhecer as farinheiras - uma casa de farinha em funcionamento - e um alambique onde é fabricada a cachaça de forma artesanal. No manguezal, os turistas conhecem o habitat natural dos caranguejos, aratus e da garça azul.Arquivo FolhaPasseio pelo rioManguezal no João de Tiba: ilhas do rio são cobertas de mangueLíliam Andrade





