‘‘Um homem que, gigantesco, além de qualquer medida, esqueceu o significado do incomensurável. O homem que sempre retorna quando uma época, que já está por terminar, reassume, ainda uma vez, o seu próprio valor. Os que viveram antes dele conheceram a dor e a alegria; mas apenas ele sente, agora, tudo o que há na vida, e sente que abarca tudo como uma coisa só. Apenas Deus permanece muito acima de seu valor: por isso ama, com ódio profundo, por sua intangibilidade.’’
Essas palavras acima, compostas pelo poeta Rainer Maria Rilke, referem-se a um dos gênios absolutos do renascimento italiano, Michelangelo Buonarroti (1475-1564). O pintor, escultor, arquiteto e poeta costuma ser lembrado ao lado de outro mito da época, Leonardo da Vinci. Ambos representariam um apogeu da racionalidade humana, capazes da expressão máxima que tudo mostra, do domínio técnico que aperfeiçoa a natureza, delimitando suas vicissitudes e êxtases estéticos.
A rede mundial de computadores não é ingrata a Michelangelo. Traz mais de 138 mil referências em páginas espalhadas em diversos idiomas, incluindo o inglês, italiano, espanhol, francês e português. Infelizmente a página oficial do artista no Brasil está fora do ar: www.michelangelo.com.br. No entanto, o sítio original italiano está muito bem hospedado no endereço: www.michelangelo.com/buon/bio-index.html
Notícias biográficas, comentários, pensamentos, até caça-palavras com temas da vida do italiano estão disponíveis na página. Se você quiser ir direto às pinturas e desenhos, um sítio mais eficiente encontra-se em www.ibiblio.org/wm/paint/auth/michelangelo/. Lá estão reproduções com boa qualidade das esculturas de Davi, Pietá ou o teto da Capela Sistina, um dos grandes tesouros da humanidade. Aliás, a criação dessas figuras na Capela Sistina rendeu boas brigas com o então supremo pontífice da Igreja Católica, Julius II. Michelangelo vivia sob um dilema comum aos artistas que criaram sob apoio do clero, assim como o russo Andrei Rublev e o espanhol Diego Velásquez. Se por um lado a Igreja sustenta e estimula o artista; por outro, ela obriga o criador a exaltá-la, mesmo que suas imperfeições estejam claras e próximas. Todos esses conflitos podem ser saboreados na ótima produção dirigida por Carol Reed, ‘‘Agonia e Êxtase’’ (EUA, 1965, 140 min), que recria os longos desentendimentos entre Michelangelo e o papa, interpretados por Charlton Heston e Rex Harrison respectivamente.
Finalmente, um lado menos conhecido da obra de Michelangelo pode ser conhecido em seu sítio oficial - seus poemas, publicados pela primeira vez em 1623, em uma edição organizada pelo sobrinho do pintor. Entre os temas, amores, a arte, e suas relações com Deus: ‘‘Senhor, se vale algum provérbio antigo,/é bem este: quem tudo pode, nada quer./Acreditaste em fábulas e intrigas/e premiaste quem da verdade é inimigo./Sou e já fui teu servo antigo/a ti me entreguei tal raio ao sol/ainda assim, o meu tempo não me toca ou dói/e quanto mais em canso mais me negas./Um dia, pensei ascender graças à tua alteza/e que um peso justo e uma potente espada/me dessem verdadeira voz e não frágil eco./Mas o céu desdenha toda virtude trazer ao mundo, se pretende que outros vão/pedir frutos a uma árvore toda seca’’.
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