São Paulo, 07 (AE) - A arte do escultor valenciano Miquel Navarro, como se disse, nada tem a ver com a de Vergara, mas é interessante notar como os dois se encontram apesar de correr em pistas paralelas. Vergara não quer representar o mundo. Já Navarro, não muito orgulhoso de sua lógica, tenta reconstruir o mundo com base no modelo que as crianças adotam. Usa peças de chumbo, ferro oxidado, cerâmica, zinco ou madeira como as criancinhas usam aquelas peças de Lego para construir casas.
As casas desse escultor de 54 anos não são comportadas como as das criancinhas. A reconstrução da urbe é feita adotando um modelo falocrata, como na pólis moderna. Tudo vai para o alto e, ao contrário de Vergara, não passa pela consciência da transformação da matéria em resíduo. Navarro brinca com o momento trágico da alienação do homem moderno, que já não mais consegue identificar na matéria uma projeção de sua miséria existencial.
Consciente disso, Navarro abandona a referência naturalista. Retoma as lições dos gregos para projetar essa cidade que faz lembrar um burgo medieval invadido pelas torres de Blade Runner. A muralha é, ao mesmo tempo, elmo e proteção espiritual contra os demônios invasores. É a armadura do guerreiro, segundo Navarro, mas, igualmente, metáfora do desejo, pretexto para ver a cidade totêmica, projetada pelo ideal pitagórico-platônico.
Navarro não admite nem de longe a idealização da cidade segundo os pintores metafísicos italianos. "Ela pode ser uma referência, mas eu recorro à ironia e às fantasias sexuais que determinam a construção da cidade", explica. "A metafísica italiana é mais pura", observa o escultor espanhol, definindo-se como herdeiro dos construtivistas russos.
"Onde há ordem há caos", diz. "Sempre há dualidade e polivalência na minha obra, mas nunca ambiguidade", garante o artista valenciano, que ficou fascinado com arquitetura ainda pequeno, ao comprar barras de chocolate e colecionar figurinhas de uma série chamada Maravilhas do Universo. A série tinha entre as reproduções o Empire State Building. A fantasia durou pouco. Navarro descobriu que a cidade ideal era a cidade do homem, não a dos arquitetos.

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