Natureza, ciência e conforto no meio do mundo
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quarta-feira, 19 de setembro de 2001
Antônio Paulo Pavone<br> Agência Estado 
Se no passado era preciso muita coragem para se chegar até esses pontinhos de lava seca perdidos no Oceano Pacífico, agora as coisas são um pouco mais fáceis. Mas o ritmo de aventura continua e os argonautas (mergulhadores ousados) de mochila não se acanham diante das possíveis dificuldades, como vôos lotados e aeroportos minúsculos.
Para navegar os mil quilômetros que separam Galápagos da costa equatoriana, são necessários quatro ou cinco dias, dependendo da embarcação utilizada. Essa opção fica só por conta dos cargueiros, barcos de pesca e veleiros oceânicos. A maioria dos mortais prefere chegar lá voando - partindo de Quito, a capital, e fazendo escala em Guayaquil. Existem dois aeroportos nas ilhas: o de Baltra e o de São Cristóbal. O último foi construído pela Força Aérea norte-americana durante a 2ª Guerra Mundial e só é usado em situações especiais.
Ao colocar os pés no arquipélago, uma aura de mistério envolve o forasteiro. Os ilhéus são reservados e não seguem os rituais de hospitalidade dos povos do Pacífico tropical. É que a influência dos polinésios não chegou a esse lado do oceano. Leões e lobos-marinhos, acostumados ao movimento no porto em Baltra - de onde parte a maioria dos cruzeiros -, também não dão muita bola para aquele bando de gente. Continuam refestelados no convés, sonolentos e preguiçosos.
A infra-estrutura oferecida pela Metropolitan Touring, empresa que detém uma espécie de monopólio das linhas de navegação local, é bastante generosa e profissional. São três embarcações: o navio M/N Santa Cruz e os iates Isabela II e Delfin II. O M/N Santa Cruz, com capacidade para 90 passageiros, é o top de linha. Foi reformado há cerca de três anos e opera roteiros de três, quatro e sete noites. Possui três deques e oferece comodidades como bar, restaurante, solário, jacuzzi, biblioteca e camarotes tipo suíte, com ar-condicionado. E carrega uma equipe completa de guias naturalistas e pessoal de entretenimento.
O Isabela II, por sua vez, apesar de menor (acomoda até 40 pessoas), supera o Santa Cruz em luxo, pois é usado para cruzeiros exclusivos, com grupos fechados. Já o Delfin oferece um programa sem pernoite a bordo, pois não possui camarotes. As saídas são feitas de Puerto Ayora, uma simpática vila de pescadores situada na Ilha de Santa Cruz. Nesse caso, dorme-se em terra, no Hotel Delfin. Essas são as opções convencionais para o turista que pretende desvendar Galápagos.
Outras alternativas? Veleiros autônomos, que fazem charter na região, e barcos de pesca adaptados para o turismo náutico, por exemplo. Nesse caso, nem pense em conforto. Mais barato alugar quartos em uma pousada em Puerto Ayora ou em Puerto Barquerizo. Mas ficar em terra firme tem suas limitações.
As ilhas mais distantes, como Genovesa, exigem muito tempo de navegação. Não dá para ir e voltar no mesmo dia. Só mesmo dormindo no barco, pois é proibido o pernoite na maioria das ilhas que fazem parte do Parque Nacional.
Depois de escolhido o barco, é só se preparar para as emoções que o aguardam. Logo de saída, se você tiver sorte, terá uma amostra da riqueza da fauna marinha local. Cardumes de golfinhos perseguem os navegantes. Todo o cenário é um laboratório vivo, ideal para quem gosta de conjugar natureza e ciência. Impossível conhecer tudo em poucos dias. A natureza segue ciclos. Para observar as célebres tartarugas gigantes em seu habitat natural, a Ilha de Santa Cruz, o período certo é entre dezembro e maio. A desova pode ser presenciada na Ilha de Floreana - lar da baronesa alemã ninfomaníaca -, no mesmo período.
Diversas espécies de baleias, como cachalote, bryde e jubarte, costumam visitar o local em agosto. Mas não esquente a cabeça com datas. Nas Galápagos, a natureza é uma festa ininterrupta. Caminhar pelas veredas demarcadas das ilhas principais, acompanhado de guia, é programa obrigatório. As ilhas mais novas, como Santiago, evidenciam com maior intensidade a atividade vulcânica. Existem mirantes que proporcionam uma belíssima visão da geografia. Ilhas mais antigas, como a de Isabela, a maior de todas, têm vegetação exuberante com campos de samambaias recobrindo velhas crateras. Nesse pedaço fumegante, o espetáculo fica por conta de uma avenida com quatro vulcões: Sierra Negra, Alcedo, Darwin e Wolf.
Alheias à geologia, as aves marinhas são presença constante, pois todo o arquipélago é um imenso santuário de nidificação. Algumas, como os pelicanos, já se habituaram à presença humana e também costumam seguir os navios, empoleirando-se nos mastros. Entre as mais exóticas destacam-se o albatroz de Galápagos, a fragata-de-papo-vermelho, os pilotos e os cormorões.
Um dos melhores pontos para observação é a Ilha Genovesa a oeste. Lá existem pelo menos 200 mil exemplares de diversas espécies, amontoadas numa pequena crosta de um vulcão submerso. Os seres alados são senhores absolutos do local. Não se importam com os humanos e seguem, a poucos metros do grupo de turistas, a barulhenta rotina de acasalamento e disputas por território. (A.P.P./AR)


