Natureza Ameaçada
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 01 de maio de 2002
Walter Garcia<BR>Especial para a Agência Estado 
Parque Nacional de Jericoacoara. O nome que deveria trazer a certeza de preservação à qualidade de vida e ao meio ambiente de Jeri, na realidade, está apenas instigando o medo e desconfiança na comunidade local.
Alijados do processo decisório e com pouca informação sobre as mudanças que a criação do parque irá provocar na vida de cada um, pescadores, bugueiros, donos de pousadas e comerciantes temem que a novidade possa acabar com o paraíso a que estão acostumados. Eu tô com muito medo do que está acontecendo. Ouvi dizer que não vamos mais poder pescar. Vivo aqui há 72 anos e nunca vi nenhuma criança pedir esmola para os turistas. Acho que isso vai mudar. Como é que vamos evitar que nossos filhos e netos passem fome?, reclama Francisco Onório Oliveira, pescador.
Onório lembra que, mesmo em dias de chuva e mar bravo, quando não era possível sair para pescar, bastava jogar a tarrafa perto da praia para garantir o almoço ou o jantar dos filhos. Com as novas regras, que ainda estão sendo criadas, ele vê com angústia o futuro dos parentes mais novos.
Para complicar ainda mais a situação, o governo federal, ao criar o Parque Nacional de Jericoacoara fez questão de manter a vila como Área de Proteção Ambiental. Isso está provocando uma especulação imobiliária assustadora. Terrenos de R$ 10 mil passaram a valer dez vezes mais. As pessoas vêm aqui e compram as terras dos pescadores só para especular. E o pior: uma projeção feita por professores da Universidade Federal do Ceará prevê que, em quatro ou cinco anos, o número de leitos para turistas em Jeri deve pular dos atuais 880 para mais de 10 mil. Aí, vai ser o fim de Jeri, diz Alex Furtado, presidente da SOS Jeri.
Pensamento semelhante têm os integrantes do Conselho Comunitário de Jericoacoara. No réveillon, recebemos cerca de cinco mil turistas e a cidade virou um lixo. Quando eu vim para cá, buscava paz e tranquilidade, se efetivarem as mudanças que estão previstas no novo plano diretor, em quatro anos, isso aqui vai virar um inferno. O pior é que o Ibama, que deveria ser nosso maior aliado nesta luta para a preservação da cidade, é hoje nosso maior inimigo ao criar as regras que instigam esta cobiça e especulação, diz Paula da Veiga Pacheco, tesoureira do Centro Comunitário e advogada.
Segundo a presidente do Centro Comunitário, a preocupação do Ibama em relação à vontade popular pode ser medida com a simples construção do prédio do órgão em Jericoacoara. Ter um posto do Ibama aqui era uma reivindicação antiga, mas não onde ele foi construído. A comunidade chegou a incendiar o prédio, mas aí vieram com a polícia e o ergueram novamente. Antigamente, podíamos ver o pôr-do-sol de qualquer ponto da rua principal, agora temos de ir até as dunas, já que o posto do Ibama tapou um de nossos cartões postais, diz Maria Filizolina de Souza, presidente do Conselho.
Diretora do Parque recém criado, a geógrafa Regina Marta Lima do Nascimento acredita que ainda é cedo para tanta preocupação. Segundo ela, as normas a serem seguidas ainda não estão bem definidas e em alguns casos vamos poder chegar no limite da lei, dependendo do posicionamento do conselho consultivo que ainda será criado, diz. Para outros casos, como a pesca por exemplo, não há como fugir muito à regra. Em todos os parques nacionais, é proibido pescar de arrasto e de tarrafa, não acredito que aqui possa ser diferente, conclui. Quanto às mudanças no plano diretor que estão provocando a especulação, ela diz concordar com a comunidade. Jeri não comporta 10 ou 12 mil turistas, afirma.
Nos anos 80, eu vivia em Trancoso, aí liberaram o turismo predatório e Trancoso acabou. Nos anos 90, conseguiram acabar com o Morro de São Paulo e agora as coisas voltam a se repetir aqui. É uma pena se acabarem com Jeri também, disse uma moradora que está na cidade há quatro anos, mas pediu para não ser identificada por temer represálias. Sei de duas pessoas que já foram ameaçadas por estarem brigando pela preservação da cidade. Não quero ser a terceira, concluiu.
(*) Walter Garcia é jornalista e vive com família a bordo de um veleiro. Maiores informações sobre esta aventura podem ser encontradas no site www.noolhar.com/veleiroreporter


