ReproduçãoAlguns romances ocultam suas preciosidades. Pedem que o leitor avance um pouco mais, vasculhe os sentimentos dos personagens, explore a paisagem da narrativa. Pedem que leitor e história tornem-se cúmplices.
Para que isso se realize, a literatura lança um barco em alto mar. Nele, o leitor navega solitário com remos que inventa, sedento de água. Este barco pode ser ‘‘A Quarentena’’, romance do escritor francês J.M.G. Le Clézio. Avançando em suas páginas somos ocupados pelas salgadas águas do Oceano Índico, pelos ventos que enchem os olhos de praias, pelas pedras vulcânicas que machucam os pés, pelos gritos dos pássaros que protegem seus ninhos, pelas noites estreladas ao som do mar e pela solidão natural em sua forma mais poética.
Na aventura de ‘‘A Quarentena’’, lançado pela Editora Companhia das Letras, um navio segue, no final do século passado, a caminho de Maurício, ilha de colonização francesa localizada no Oceano Índico, próxima a Madagascar. Os irmão León e Jacques, e a mulher de Jacques, Suzanne, estão a bordo numa tentativa de rever seus antepassados. Os passageiros, na grande maioria, são imigrantes indianos destinados aos trabalho semi-escravo dos engenhos de açúcar da ilha. No meio do caminho alguns tripulantes começam a morrer de varíola. Temendo uma epidemia, o navio britânico abandona seus passageiros numa pequena ilha vulcânica, Plate, próximo de Maurício.

ReproduçãoLe Clézio: apontado como o maior escritor vivo da língua francesaNesta ilha selvagem, permanecerão em quarentena enfrentando uma verdadeira aventura pela sobrevivência. Atacados pela varíola, cólera, tifo, sem medicamentos, pela falta de alimentos e água potável, viverão numa ilha dividida ao meio, de um lado um pequeno grupo de civilizados europeus, do outro, a grande massa de imigrantes hindus. A beleza da natureza de Plate e a horrível morte epidêmica estarão convivendo lado a lado.
Os personagens mágicos são León e Suryavati. León, em suas andanças pela ilha, encontra a indiana Suryavati que acompanha a morte da mãe na mesma praia em que a avó morreu. Apaixonam-se. A relação entre eles é grandiosa. Na realidade trata-se de um belíssimo triângulo amoroso: León, Suryavati e a natureza da ilha. León abandona seus laços civilizatórios para cair nos braços da natureza e nos seios de Suryavati. Seu passado é queimado nas piras em que são cremados os que padecem da epidemia.
O autor Le Clézio, 47 anos, está entre os mais cultuados escritores franceses contemporâneos. Através de pesquisa realizada há alguns anos, foi apontado como o maior escritor vivo da língua francesa. Foi objeto de estudo de Gilles Deleuze em um dos textos de seu último livro, ‘‘Clínica e Crítica’’. Admirado em toda a Europa, publicou mais de 30 livros, entre romances, ensaios e poesia. Possui apenas outros dois romances editados no Brasil, ‘‘À Procura do Ouro’’ (1985) e ‘‘Deserto’’ (1987), além de um ensaio biográfico ‘‘Diego e Frida’’ (1994) sobre a tempestuosa relação amorosa entre Diogo Rivera e Frida Kahlo, pintores mexicanos.
Em ‘‘A Quarentena’’, Le Clézio trabalha com narrativas paralelas. O enfoque principal, o exílio na ilha - o romance propriamente dito - narrado por León; a história de Ananta, mãe de Suryavati, em sua fuga da saguinária guerra do interior da Índia; a voz do próprio autor em dois tempos, um em que imagina o encontro do próprio avô com Arthur Rimbaud e outro em que viaja para Maurício para conhecer Anna, a última remanescente da família que vive como louca no asilo de um convento. Partindo da biografia de seus antepassados que viveram em Maurício, o escritor cria uma obra onde ficção e realidade caminham pelo país da memória.
O que impressiona no texto de Le Clézio é sua delicadeza poética em erguer uma oração amorosa à natureza, relembrar capacidade das pessoas se encontrarem no mais íntimo de seus destinos, apresentar, dentro da utopia como ilha, o desrespeito ao semelhante como o grande pilar do poder. ‘‘Aqui termina o paraíso dos ricos e começa o inferno dos pobres’’.
• A Quarentena - de J.M.G. Le Clézio, Editora Companhia das Letras, tradução de Maria Lúcia Machado, 364 páginas, R$ 29,00/Livraria Rosa do Povo.

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