Natu Blues: noites de sopro na alma
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 01 de maio de 2002
Ana Clara Garmendia<BR>Equipe da Folha 
Foram três noites inesquecíveis as dos dias 24, 25 e 26 de abril, respectivamente quarta, quinta e sexta-feira da semana passada. O palco do Moinho São Roque, em Curitiba, foi inundado por um estilo musical que nasceu na América mas, ao longo de muitos anos, conquistou apaixonados em alguns cantos do planeta. Um deles é aqui. Foi por uma iniciativa da Natu Nobilis que o Natu Blues aconteceu apenas no sul do país (Curitiba e Porto Alegre).
Logo na primeira noite de Natu Blues na cidade uma certeza: o blues não é para multidões. É para amantes de um bom som. Apreciadores de uma música que sopra de dentro da alma dos músicos e que por isso mesmo tem que ser ouvida com conforto. E é isto que os curitibanos viram na noite de quarta-feira, quando o vocalista do ira!, Nasi, trouxe seus irmãos para abrir uma maratona de três dias de homenagens ao autêntico estilo de Chicago.
Tem sempre um pouco de melancolia na alma do blueseiro. Deve ser por causa de suas raízes e é isso que o mantém intacto. A apresentação de Nasi & os irmãos do blues mostrou uma faceta diferente do vocalista consagrado nacionalmente com a banda comercial ira!. Em ação como vocalista de blues, Nasi se mostra mais cru, mais voz, melhor.
Um público seleto e sabedor do que tinha ido ouvir, vibrou com a música de um grupo que já tem quase dez anos de estrada e dois discos lançados. O som que Nasi faz em parceria com seus irmãos Fábio Magalhães (guitarra), Claudio Morcego (baixo), Claudio Tchernev (bateria), Sergio Duarte (gaita), Hugo Hori (saxofone) e Renato Farias (trombone) e ainda os consagrados Bocato (trombonista de primeira linha) e Jonnhy Boy (tecladista) impressiona e confirma que o som é mesmo universal. Embora o blues não tenha nascido por estas bandas temos bons representantes. A melhor mostra disto foi durante o encerramento do show mágico e crescente do guitarrista Magic Slim. Voltando ao palco para uma jam session, Nasi soltou o vozeirão e levantou mesmo a concentrada platéia.
Na segunda noite a presença do gaitista Carey Bell e seu blues contemporâneo garantiram os melhores momentos de toda a jornada musical. Bell já é um veterano, mas ainda conserva a mobilidade de um músico jovem. Parceiro das antigas de grandes nomes como Willie Dixon, Big Walter Norton e o grande Muddy Watters, hoje é admirado por estar muito perto da perfeição com seus assopros. Pura pesquisa diria ele mesmo, dias antes, em entrevista aos jornalistas produtores do festival. Depois dele ter entorpecido uma platéia maior do que a noite anterior, subiram ao palco Hubert Sumlin e André Christovam e seu trio. Embora o show tenha sido correto e embalado no melhor estilo Chicago, a mágica já tinha passado. Carey Bell ganhou a noite e para contar melhor, o festival.
Sexta-feira, casa lotada e mais blues. A platéia recebeu fervorosamente os filhos da casa. A banda curitibana Mister Jack deu seu recado na abertura da noite mais falada (mas não a melhor) do festival. Depois deles, a parte incendiária. Vinda diretamente das igrejas do Mississipi (onde começou cantando gospel), Big Time Sarah acompanhada da banda brasileira Blue Jeans mostrou que perdeu a forma física ( ela é enorme) mas não a musical. Suingada, maliciosa (fez brincadeiras permissivas incentivando quatro homens da platéia que subiram ao palco a apalparem seus seios e nádegas) e ousada. A única mulher a se apresentar durante todo festival agradou e divertiu todo mundo com interpretações de grandes sucessos como The Thrill Is Gone, The Sky Is Crying, Summertime, Aint No Sunshine e Hotchie Cotchie Woman sua versão feminina para o clássico de Willie Dixon. Dentro do blues tem lugar para a grande alma feminina.
Encerrando a maratona, o norte-americano Coco Montoya e sua banda agradaram os amantes de um som mais pesado. Uma avalanche de solos de inacreditável técnica ao longo de duas horas. Acordes longos e muita contemplação a um músico que desembarcou pela primeira vez por estas terras com um currículo de primeira. Antes de seguir em carreira solo participou das bandas de Jonh Mayall e foi aluno de Albert Collins. Não foi o melhor show, mas serviu para mostrar que Curitiba merece e precisa mais ter acesso a um estilo que ainda vai se esparramar muito pelo mundo. O blues não vai morrer nunca.
Em tempo: o guittarista Magic Slim ficou quinta e sexta-feira perambulando pelo Moinho São Roque dando canjas, tirando fotos e paquerando as brasileiras. Faz parte da alma do blueseiro ser sedutor.


