Tempo Rei é o documentário de Gilberto Gil, co-produzido pela Conspiração Filmes, Gegê Produções, Ravina Produções e HBO, que exibe o programa hoje, às 21h30. Todo rodado em película de cinema, este é considerado o mais vultoso dos projetos nos quais o cantor e compositor esteve envolvido em 1996.
Em abril do ano que vem, o filme, que comemora os 30 anos de carreira de Gil, será lançado em homevideo e chega às lojas simultaneamente ao lançamento de seu próximo disco, o álbum duplo Quanta. Duas das canções do disco, Guerra Santa - em cenas do Hollywood Rock deste ano - e o tributo a Tom Jobim, do último Reveillon carioca, estão no filme.
Tempo Rei tem tudo para virar cult, já que, como diz o próprio compositor e cantor, é para iniciados em Gilberto Gil. Em 1h50, o documentário, que Gil apelidou de ‘‘A Saga do Plebeu’’, conta sua história por linhas paralelas aos acontecimentos históricos de sua carreira.
Entre as insuspeitas canções escolhidas estão poucas daquelas que se tornaram seus grandes hits. Nem tampouco figuram cenas dos festivais de música ou análises profundas sobre o tropicalismo. O que se ressalta é a presença do indivíduo e a sociedade. É a força disso que Gil aprecia no resultado. ‘‘É uma das amostras interessantes que você tem da nação brasileira, da Bahia, com as festas, o carnaval, as tradições, o foco sobre um tempo explanatório, a certeza no advento dos fatos’’, diz o compositor. E tudo isso dessa forma barroca de me expressar’’, completa.
Segundo ele o documentário não é uma tentativa de fazer um relato cronológico exato de sua carreira. ‘‘O discurso fica na emoção. Não precisa comentar o tropicalismo porque tudo é tropicalista. A desobrigação da narrativa linear é que é bonito no filme.’’
CINEMA NOVO - Evocando o cinema novo, especialmente Glauber Rocha, os diretores Andrucha Waddington e Lula Buarque de Hollanda, partiram para a terra natal de Gil (Ituaçu, Bahia) sem um roteiro pré-estabelecido. Muitas das idéias foram surgindo no decorrer das 40 horas de filmagem.
Fio condutor da narrativa, a visita de Gil a Ituaçu (para onde não ia há mais de 40 anos) foi o único evento planejado. As imagens dos dias em que passou na cidade - com antigos conhecidos, a mãe Claudina, uma tia, a filha Preta, o violonista Roberto Mendes -, vão se alternando durante o filme com outras locações em Salvador, São Paulo, Rio e Cachoeira, expondo contrastes.
As câmeras captam Gil entre lembranças de Londres, num ritual de candomblé (‘‘a religião como espelho da natureza’’), preparando-se para desfilar no Afoxé Filhos de Gandhi, discutindo o sincretismo religioso da Bahia com Jorge Amado.
Imagens rurais, que Gil diz terem permanecido sempre dentro dele, e lugares míticos têm grande impacto sobre ele e sobre o filme. Personagens não identificados, como a senhora que só se lembrava dele por causa de um sapatinho de lã que lhe deu de presente quando bebê, protagonizam cenas tocantes.
Para Waddington este foi seu grande aprendizado de documentário. ‘‘A gente aprendeu fazendo. Num documentário é preciso ter o olho atento para perceber o que está acontecendo à sua volta e captar rápido, não tem muito roteiro.’’
Waddington e Buarque dizem que se pautaram pela emoção de Gil. ‘‘Sinto-me como um homem velho podendo ver uma cena holográfica de sua infância’’, diz o compositor. ‘‘Me lembrei de Guerra nas Estrelas. Fico diante desse documentário como se fosse um holograma de forma circular. E as imagens em película cinematográfica têm mais poesia, constraste, realçam as cores.’’
GIL E CAETANO - As imagens realmente primam pela beleza, o impacto da luz e a espontaneidade das cenas. O filme começa com Gil caminhando por uma praia tocando violão e cantando ‘‘Lugar-Comum’’, parceria dele com João Donato. O mar, aliás, é figura recorrente no filme, como tema de canções ou em imagens.
Um dos momentos mais interessantes é o encontro de Gil com Caetano. Os dois, sentados numa pedra à beira-mar, lembram de quando o protagonista começou a ‘‘tematizar a negritude’’, influenciado por Jorge Ben (hoje BenJor), por volta de 1965. ‘‘Foi Gil que desencadeou a conscientização do negro baiano, coisa que o Rio não tem até hoje’’, observa Caetano. É ali que eles cantam ‘‘Cores Vivas’’ e ‘‘Back in Bahia’’, dois dos grandes momentos musicais.

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