NATAL COM AS GALINHAS EM FUGA
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 20 de dezembro de 2000
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Londrina Especial para a Folha 2 
Em A Fuga das Galinhas tudo começa por uma falsa pista. A câmera mostra um conjunto de alojamentos, atrás dos arames farpados perfeitamente alinhados de um campo de concentração. Ele está localizado em Yorkshire, norte da Inglaterra, anos 50, mas o espectador pode perfeitamente transplantá-lo para a Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. E com motivos, a esta altura, quase de sobra. Este alojamento é a replica exata daquele criado pelo diretor John Sturges em Fugindo do Inferno (The Great Escape, 63). E o cinéfilo aplicado, já de ouvido alerta pelas notas musicais muito parecidas com aquelas da inesquecível partitura que Elmer Bernstein compôs há quase 40 anos, espera rever a qualquer momento o líder dos prisioneiros, Richard Attenborough. Melhor ainda: Steve McQueen metido num suéter manchado, às voltas com a enésima e frustrada tentativa de fuga, logo imobilizado na solitária e sonhando com a liberdade e tramando a próxima escapada enquanto joga uma bola de beisebol contra o muro da cela.
Mas por um toque genial, mágico da dupla inglesa Nick Park e Peter Lord, carne e osso dos humanos são substituídos pela massa de modelar, e Steve McQueen transformado em uma galinha animada que, com a mesma pose e atrevimento, não mais enfrenta guardas alemães mas um casal de granjeiros, os Tweedy, fascinados com a idéia de transformar Ginger (é esse o nome da heroína) e suas companheiras em ingrediente de torta de frango.
Steve McQueen desfilava naturalmente os atributos do herói. Ginger, sua replica em massa de modelar, olhos arregalados em estupor e lenço no pescoço, parece uma dona de casa militante pela livre expressão e autodeterminação das galinhas.
Em seu horizonte há uma terra prometida de liberdade, para ela e todas as outras, somente acessível pelas vias aéreas. Um arremedo de ajuda aparece com o falante, bon vivant e enganador galo Rocky, que chega voando (!) e vendendo a ilusão da fuga fácil. Mas enquanto não se descobre o plano mais adequado, a morte ronda os galináceos com a instalação da engenhoca que pode funcionar a qualquer momento, iniciando a produção em série de tortas caseiras atenção para Rocky e Ginger sendo tragados pela máquina diabólica; eles protagonizam outra das várias homenagens que o filme presta aos bons filmes de ação, desta vez à vertiginosa sequência de abertura de Caçadores da Arca Perdida.
O que fascina nesta pérola da animação não é apenas o brilho do delicado artesanato exterior, a filigrana da supremacia do toque humano que despreza a informatização autosuficiente e literalmente dá o ar de suas muitas graças e delicadezas. Também o recheio é acima de qualquer suspeita. Ao escrever uma história que assume deliciosamente o flerte com o gênero campo de prisioneiros (Inferno 17, de Billy Wilder, é outra referência afetiva) , a dupla Park & Lord soube divertir o público, captando a atenção de menores (menos) e maiores (muito mais), sobretudo mantendo o suspense. É um belo estudo psicológico de grupo, tanto de personagens principais como dos secundários. A Fuga das Galinhas é também um sincero e divertidíssimo elogio à vontade individual e à liberdade coletiva, opondo uma militância combativa a qualquer interferência de resignação.
Os realizadores não escondem um sentimento de certa forma ingênuo e quase utópico a platônica república das galinhas, como prêmio pela persistência e ousadia da fuga espetacular , um gosto natural pela desordem e pela anarquia, uma evidente facilidade de adotar o ponto de vista da minorias oprimidas . Mas sem qualquer traço ou vestígio de demagogia em sua formulação metafórica deste mundo paralelo ao nosso. Dominado quase inteiramente por criaturas da espécie feminina, com dois galos fazendo pálida figura, o filme, em sua porção feminista, é uma grande homenagem a um grupo de emplumadas e furiosas sufragistas decididas a mudar a vida.
Com brio, Chicken Run reúne humor, ação, drama de guerra, film noir e romantismo. É um grande momento de cinema, que não abre mão de um mix de nostalgia, ternura e modernidade no desenho de produção e nos diálogos travados por tipos os mais diversos. Entre eles um par de simpáticos ratos dublês de espiões e patifes e um velho galo chamado Fowler, sempre a evocar os tempos da Real Força Aérea inglesa.


