Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Londrina
Especial para a Folha 2
Quiz show natalino: o que a invasão (e o genocídio) da Chechênia pela Rússia tem a ver com Bond, James Bond ? Ganhou pontos quem respondeu tudo. Semana passada, o cambaleante e por isso sempre perigoso Boris Yeltsin estava furibundo com uma advertência do priáprico e por isso sempre perigoso Clinton sobre o conflito na região do Cáucaso. O velho urso acenou com a velha cantilena do velho mas ainda não enferrujado arsenal nuclear. A águia recolheu as garras. Por enquanto.
Pois bem: esta pequena encenação nos bastidores da diplomacia esfarrapada atende pelo nome de guerra fria, um jogo de gato e gato que as superpotências - a Rússia ainda era a imperial URSS e os EUA eram o que são - sempre souberam disputar como ninguém. (A China não sabe brincar até hoje. Leva tudo muito a sério.) A tensão mundial, com a bipolarização do poder a partir da segunda metade do século e particularmente nos anos 60 e 70, chegou a níveis quase de ebulição. E foi nesse contexto real de ânimos internacionais exacerbados que surgiu e se cristalizou o agente James Bond, um dos mais duradouros exemplares da mitologia cinematográfica.
Quando 007 apareceu pela primeira vez, em 1962, extraído da literatura pulp-light do inglês Ian Fleming, com traços e jeito marcante forjados por Sean Connery, o personagem tinha a cara e os métodos da guerra fria então em franca prosperidade. Herói cínico a serviço secreto de sua (dele) colonial majestade, o elegante e sedutor Bond era sempre o último baluarte da democracia ocidental contra as perfídias do comunismo expansionista soviético, encarnado em vilões terceirizados que atendiam pelos deliciosos nomes de Dr. No e Goldfinger, entre outros. Mas no xadrez internacional, um xeque-mate ideológico liquidou o sonho comunista e esfacelou a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Bond sobreviveu mas trocou de fisionomia, perdeu charme, ficou sem graça. Os roteiristas da série tiveram que providenciar alternativas não políticas, como sociopatas e psicóticos chantageando a humanidade apenas em troca de dinheiro, ou no máximo provocando levemente o terrorismo fundamentalista. Já não se fazem mais gênios da S.P.E.C.T.R.E. como antigamente, em busca estratégica do desequilíbrio da ordem política mundial.
‘‘O Mundo Não é o Bastante’’, em lançamento nacional neste fim de semana (confira programação de cinema na página 5) é ilustrativo dessas transformações. Novamente interpretado pela esfinge Pierce Brosnan, 007 está mais uma vez às voltas com o terrorismo globalizado. Auxiliado pela doutora Christmas Jones, uma expert em armas nucleares (Denise Richard), Bond tem a missão de proteger Elektra King (!), a filha de um magnata do petróleo assassinado. Quem pretende agarrar a moça (Sophie Marceau) é um perigoso terrorista internacional (o ótimo Robert Carlyle). Detalhe sado-masô: o vilão carrega uma bala no cérebro que o torna imune à dor.
O resto é muita ação em locações como de hábito exoticamente privilegiadas (Alpes franceses, Azerbaijão, Turquia, Espanha e, é claro, a Inglaterra), com filmagens durante seis meses e produção a um custo estimado de 125 milhões de dolares. A propósito da Bond-girl da hora, a francesa Sophie Marceau, ainda repercute o show de nonsense que ela protagonizou na noite de encerramento do Festival de Cannes deste ano; até hoje a imprensa francesa não compreende e nem encontra justificativas para o discurso - um longo amontoado de frases desconexas. De qualquer maneira, Sophie, que o grande público conhece de ‘‘Coração Valente’’, de Mel Gibson, além de bela sabe bem o ofício. Seu personagem, Elektra, é uma soma das características de seu registro: vulnerável, sexy, agressiva, infantil e sofisticada (para conhecê-la melhor é preciso buscar nas locadoras o drama de época ‘‘Marquise’’). Com esta descrição pensa-se automaticamente em Connery e não em Brosnan, primeiro como antagonista provocador, logo como parceiro de folguedos amorosos.
Para surpresa de cinéfilos em geral, quem dirige ‘‘O Mundo Não é o Bastante’’ é Michael Apted ( ‘‘Nell’’, ‘‘Na Montanha dos Gorilas’’), cineasta até aqui não identificado com a ação. Segundo ele, os produtores Barbara Broccoli e Michel Wilson queriam maior dose de drama convivendo com tiros e perseguições. Daí a proposta, imediatamente aceita.James Bond faz sua 19ª aparição nas telas em thriller de 125 milhões de dólares que estréia hoje
ReproduçãoPierce Brosnan volta às telas como James Bond: um agente sempre às voltas com o terrorismo globalizadoReproduçãoCena de ‘‘O Mundo Não É O Bastante’’: em lançamento nacional neste fim de semana

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