'Natal Amargo' estreia em Londrina: um Almodóvar autoindulgente
Novo filme do diretor espanhol parece ser exclusivamente para cinéfilos; a exploração das emoções não se traduz em experiência para o espectador
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 27 de maio de 2026
Novo filme do diretor espanhol parece ser exclusivamente para cinéfilos; a exploração das emoções não se traduz em experiência para o espectador
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 

Dentro do recente período macabro da carreira de Pedro Almodóvar, que inclui “Dor e Glória” (2019), “Mães Paralelas” (2021) e sua estreia em longas em inglês, “O Quarto ao Lado” (2024), apenas “Mães Paralelas” pode ser salvo, pois o restante é insuportável em sua autocomplacência, formalismo, repetição, superficialidade, conformismo e, precisamente, em sua imersão na morte confundida com análise e, por vezes, brutal honestidade – uma abordagem a essa altura ultrapassada ou até redundante – exceto no caso da obra de 2021, que ofereceu uma novidade inesperada: a luta da esquerda espanhola pela punição dos diversos crimes cometidos pelos falangistas/fascistas durante a Guerra Civil (1936-1939) e, além disso, a Ditadura Franquista (1939-1975), crimes que ficaram impunes devido ao pacto de impunidade durante a transição para a democracia (1975-1982) e sua Lei de Anistia de 1977.
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Em sua nova proposta/retorno à Espanha, “Natal Amargo”(recém saido cabisbaixo do Festival de Cannes, está em lançamento mundial, Londrina inclusive), Almodóvar continua incapaz de escapar de sua bolha burguesa e de seus espelhos narcisistas, nos quais vê apenas um homossexual velho, inseguro e temeroso, tanto o seu próprio reflexo quanto o dos outros.
Para piorar a situação, ele ainda filma melodramas para mulheres que não sabem como conciliar plenamente as protagonistas femininas de outrora com sua nova mas tardia identificação com personagens gays fortes, e não mais decorativos, como acontecia no início e nem meados de sua carreira. Esse detalhe permite a ele evitar problematizar a homossexualidade como seus ídolos de outros tempos, Fassbinder e John Waters, entre outros, que foram de fato muito corajosos em suas respectivas épocas, assim como o Almodóvar da Movida Madrileña na primavera democrática pós-Franco dos anos oitenta.
HISTÓRIA EM DUAS DIMENSÕES
A história se desenrola em duas dimensões. Na primeira, Raúl (o argentino Leonardo Sbaraglia), veterano e prestigiado diretor gay em pleno bloqueio criativo e há anos sem filmar, precisa aceitar que seu namorado, Santi (Quim Gutiérrez), se tornará seu assistente em 2025. Isso porque sua ex-assistente, a lésbica Mónica (Aitana Sánchez-Gijón), que ocupou o cargo por duas décadas, decide se demitir para apoiar sua parceira em um momento difícil, já que seu filho pequeno está morrendo de doença terminal.
Isso nos leva à segunda parte-dimensão da história, onde Raúl está escrevendo um roteiro sobre Elsa (Bárbara Lennie), de luto pela morte da mãe, uma diretora focada principalmente em publicidade que já dirigiu dois longas-metragens. Em 2004, Elsa namora um bombeiro e stripper mais jovem, Bonifacio (Patrick Criado), e sofre de enxaquecas e ataques de pânico. Ela pede remédios a uma amiga um tanto insuportável, a magnata da cultura Gabriela (Rossy de Palma (atriz fetiche de Pedro).
Mas a estrutura narrativa torna-se mais densa à medida que se desenrola. Não só densa, mas estéril e perdida em si mesma, incapaz de avançar ou oferecer qualquer novidade significativa, padecendo de construção discursiva profundamente enfadonha ou desagradável. E também é tomada por constante previsibilidade, já que a emoção genuína desapareceu há um bom tempo; e a metaficção ou autoficção, tão amplamente exploradas por Woody Allen, Fellini, Bergman e pelo próprio Almodóvar já se esvairam pelo labirinto almodovariano.
Temas recorrentes e enfadonhos, como a referência fugaz a “Peeping Tom” (1960), clássico de Michael Powell, a morte da mãe, a hipocondria da elite, suas misérias românticas, familiares e profissionais, ou a história dentro de uma história dentro de uma história, além da enxurrada de personagens em luto ou vampirizando-se grosseiramente uns aos outros, acabam todos caindo na mesma categoria dessa decadência autoimposta incomum que parece se subdividir em capítulos individuais – as obras anteriores e aquela com a qual estamos lidando – que falham ou decepcionam, sem também construir um panorama revelador/atraente que justifique sua existência nesta fase outonal da carreira do cineasta manchego, sempre obcecado por encenação.
“Natal Amargo” acaba sendo um filme exclusivamente para cinéfilos: um filme cuja exploração das emoções definitivamente não se traduz em experiência emocional para o espectador. O entretenimento, a emoção e o humor, apesar de alguns lampejos promissores no início, ficam soterrados sob uma pesada mistura de intensidade, melodrama e pretensão.





