Poucos profissionais conseguiram tanto poder na história da imprensa brasileira como David Nasser (1917-1980), estrela maior da revista O Cruzeiro, uma espécie de TV Globo da década de 50. Ele desfrutava no mais amplo sentido de um prestígio que nenhum outro jornalista ostentou, no período de 1943 a 1974. Apesar do reconhecimento profissional, fatos relevantes e obscuros de sua vida permaneciam desconhecidos.
O livro recém-lançado ''Cobras Criadas David Nasser e O Cruzeiro'', biografia escrita pelo jornalista Luis Maklouf Carvalho, editado pela Senac, joga luz nos bastidores escusos da revista e nos métodos profissionais nada ortodoxos de Nasser. Depois de escrever ''Mulheres que Foram à Luta'', detentor do Prêmio Jabuti em 1999, em que conta a luta armada do ponto de vista das mulheres, Maklouf farejava um assunto mal explicado, protagonizado por alguém com a vida pouco conhecida. Ele encontrou em Nasser o personagem fascinante e, de quebra, traçou um panorama da revista semanal O Cruzeiro, lançada em 1928 que levou seu último exemplar às bancas em 1975. Com a cobertura da morte de Getúlio Vargas, em outubro de 1954, a revista chegou aos patamares de 720 mil exemplares, o maior de sua história, num período em que o Brasil possuía 54 milhões de habitantes.
''Cobras Criadas'', um cartapácio de 600 páginas e 1,3 kg, traz mais de 200 imagens, apoiado em 103 entrevistas com familiares e ex-amigos. O livro revela que David Nasser manteve relações de profundidade com militares, fazendeiros e empreiteiros influentes. Todo o crescimento financeiro do jornalista tem intrínseca relação com essas facções.
Filho de libaneses, o ''turco'' nasceu em 1917, em Jaú, interior paulista e passou a infância em Caxambu (MG). Luiz Maklouf entalha com minúcia a figura lendária de Nasser, o menino franzino que nascera com problemas de visão e paralisia parcial nas pernas. Chegou a guiar charrete, puxada por um bode, quando criança. Na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, de posse de um tabuleiro, vendia lápis, pentes, giletes e outras quinquilharias.
É essa trajetória do sujeito de origem humilde que se tornou amigo influente de presidentes, ministros e empresários que Maklouf apresenta. Contrapondo ao poder que desfrutava, era uma figura de extrema fragilidade física. Caminhava como se estivesse bêbado. Era fanhoso, além de ter a dicção atrapalhada. Vaidoso ao extremo, costumava ler em voz alta as partes do texto que julgava esbarrar na genialidade. Nasser trabalhava com o fotógrafo francês Jean Manzon. A dupla peçonhenta foi responsável por grandes controvérsias e intrigas nos anos 50. Apesar de não ostentar técnica moderna de texto, não era antiquado. Mas foi no terreno imaginoso que Nasser fez nome. Ele oferecia-se como notícia principal, mesmo quando cobria grandes histórias. O protagonista do livro se passava por vítima ao inventar prisões que nunca sofrera.
Outra faceta do jornalista é a de letrista de quase três centenas de músicas, entre elas ''Nega do Cabelo Duro'', ''Canta Brasil'', ''Atiraste uma Pedra'' e ''Pensando em Ti'', compondo com Ataulfo Alves, Luiz Gonzaga, Garoto, João Roberto Kelly, Lupicínio Rodrigues, entre outros. Foi autor de 17 livros.
O período de 43 a 51 foi considerado áureo para a dupla Nasser-Manzon. O fotógrafo era dotado de mentalidade cinematográfica, se especializando em fotos posadas. Se o fato atrapalhasse, eles atiravam para baixo do tapete. Afinal, eram partidários do jornalismo de resultados. A reportagem de maior repercussão Barreto Pinto sem Máscara publicada na edição de 29 de junho de 1946, apresentava o então deputado federal Barreto Pinto combinando muito à vontade fraque e cuecas. Repercutiu até na revista Times. Na justificativa de Pinto, ele diz que deixou-se fotografar daquela forma, porque os dois disseram que iriam ''aproveitar o busto''.
Como ilusionista soberano do jornalismo brasileiro, Nasser escreveu sobre uma visita numa aldeia xavante, onde os índios teriam sido fotografados pela primeira vez. ''Enfrentando os Chavantes'' (N.R. assim mesmo com ch) trazia 26 fotos em 20 páginas, em mais uma reportagem ficcionista. O fato é que eles nunca chegaram perto dos silvícolas. Nasser e Manzon convenceram até o médium Chico Xavier ser fotografado numa banheira, com a mão espalmada na testa, na reportagem ''Chico Xavier, detetive do além''. Numa ''reportagem'' de 1944 (43 dias nas selvas amazônicas), ele diz ter passado longa temporada na selva, sem ter colocado os pés fora do Rio de Janeiro.
Inventava coisas para poder valorizar as reportagens. A maior fraude da revista pousou nas bancas num encarte ''Extra'' na edição de 17 de maio de 1952. ''Disco Voador na Barra da Tijuca'' dizia a manchete. O produtor de cinema Luiz Carlos Barreto, fotógrafo da revista, declarou em ''Cobras Criadas'': ''foi tudo um truque planejado. Na época, interessava, tinha charme, apelo''. Carlos Heitor Cony declarou que Nasser e Manzon ocuparam o espaço da emoção jornalística, gráfica e visual de uma forma eficiente, moderna e teatral.
Anos 60. Ele estreita amizade com a turma de investigadores policiais que se tornaria o Esquadrão da Morte, nome fantasia do Scuderie Le Cocq, que se consideravam apóstolos da Justiça. Quando Nasser morreu, o caixão foi coberto pela bandeira do Esquadrão da Morte, uma homenagem ao presidente de honra da organização. Indignado, Cony saiu do velório ao avistar a bandeira.
Com o golpe de 64, as relações sinistras com os militares se escancararam publicamente. Nasser indicou Delfim Neto a Costa e Silva e este se tornou Ministro da Fazenda. Defendeu o AI-5 como ''medida de sobrevivência revolucionária a que ninguém podia escapar''. Se tornou guru de Mário Andreazza, ministro dos militares e foi abastecido por informações sigilosas sobre guerrilha urbana.
''Cobras Criadas'' faz uma varredura no R.H. de O Cruzeiro, detalhando a vida dos integrantes da revista, cada qual entrando na profissão de uma maneira. O time recebeu profissionais vindos das mais distantes regiões do País. Amado e odiado com a mesma intensidade, era comum Nasser ser alvo dos desafetos. Samuel Weiner, em seu livro de memórias ''Minha Razão de Viver'', detonou a figura do ''turco'': ''Ele é a prova acabada de que é possível enriquecer utilizando em proveito próprio os instrumentos oferecidos pela profissão''.
Outro fato a destacar na existência de O Cruzeiro se deu na Copa de 1958, e foi considerado o maior feito publicitário da história da revista. À base de propina aos patrulheiros, conseguiram levar o escrete canarinho para a redação antes de desfilar na avenida Rio Branco e encontrar o presidente J.K. No período de declínio da revista, ninguém se arriscava em falar em reportagem ou pauta para o colega do lado, a não ser que tivesse uma relação mais íntima. Se alguém ouvia, surrupiava a pauta.

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