Nasce uma escritora
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 24 de abril de 1997
Antônio Mariano Júnior 
Milton DóriaMichelle Regina de Mello Varrasquim: Homenageei minha avó porque os maiores elogios às minhas redações vinham delaTodo o santo dia, durante seis meses, a rotina se instaurava depois do almoço. Ou seja, a estudante Michelle Regina de Mello Varrasquim se punha a escrever. E escrevia pelo menos uma página do que futuramente se tornaria seu primeiro romance. Ia sem muita pressa. Tecla por tecla do computador, frase por frase, trama por trama e eis que em dezembro do ano passado ela conseguiu colocar ponto final em seu livro - Laurita, que foi patrocinado pela Unopar. O lançamento deve acontecer nos próximos dias.
A publicação de um romance não chamaria tanto a atenção não fosse escrito por um moça de 17 anos, bem articulada e que jura nunca ter tido a intenção de se tornar uma escritora. Admite apenas que o gosto pela escrita proveio do desenvolvimento das redações - aquelas cujos temas são dados em sala de aula. As suas sempre se destacaram. E eis que um dia, um professor de Literatura, Eduardo Bacarin, após alguns elogios, veio a saber que ela estava preparando um romance.
Dele veio também o incentivo decisivo. Ele me incentivou tanto e disse que se eu terminasse de escrever o colégio até teria interesse em publicá-lo- conta Michelle. E ela, mais que rapidinho, se pôs a traçar o destino de Laurita. Se ele (Eduardo) não tivesse me incentivado talvez nem tivesse terminado de escrever o livro porque, para mim, escrevê-lo era só um lazer- admite ela.
O livro sai com uma tiragem inicial de mil exemplares. O preço ao leitor ainda não está definido, mas deverá ficar entre R$ 10,00 e R$ 15,00. Para lançá-lo, Michelle contou com a ajuda financeira também da mãe, Regina Ferreira de Mello, e do amigo Reny Borsato.
Casamento sem amor Laurita se passa numa zona rural qualquer num tempo qualquer em que era comum o casamento por conveniência ou imposição. E é a partir dessa relação sem amor que se destrincha o destino da personagem Laurita, que recebeu o mesmo nome da avó materna de Michelle. Sim, é uma homenagem. Mas a autora adianta que não se trata de um romance biográfico. Homenageei minha avó porque os maiores elogios às minhas redações vinham dela. Ela era quem me incentivava a escrever- conta Michelle.
O único ponto em comum entres as Lauritas é que ambas viveram parte de suas vidas na zona rural, numa vida de agricultura. E só. A Laurita ficcional é apresentada como uma mulher fechada, de pouca conversa, que mora no campo, deixa que seu destino sentimental seja manejado e cujos atributos são vistos com olhos fortes de muitos rapazes da região.
Certo dia, o filho de um fazendeiro vizinho, o rico Antonio, se encanta por Laurita e propõe casamento ao pai dela. Casam-se. Depois de um tempo, nasce a primeira filha do casal, Clara Lua. A vida familiar é pacata só que sem amor. Para Antonio, casamento não é sonho; é necessidade. Ele quer uma mulher que trabalhe, cozinhe e que fique ao seu lado- explica Michelle.
Aquela vidinha é sacolejada de uma hora para outra quando Pedro, o educado e amoroso irmão de Antonio que mora na cidade, vem conhecer a sobrinha. Ele se apaixona por Laurita. Laurita se apaixona por ele. Pedro é imediatista. Laurita não admite que esse amor possa estar acontecendo. No meio desse triângulo, a personagem central vai sofrendo, passa por privações, perde alguns de seus afins, sofre como poucas. É um romance que acaba bem, mas o chamado final feliz não é óbvio- adianta a autora.
Nasce uma escritoraEste não é o primeiro livro escrito por Michelle Regina de Mello Varrasquim. Quer dizer, é o primeiro publicado. Em 88, ela escreveu à mão um livro sobre o Plebiscito que ficou engavetado e que, pelo jeito, não tem nenhum remorso por não torná-lo público. A jovem, estudante de Administração, informa também que está terminando um terceiro livro - uma biografia do bisavô Joaquim Soares de Camargo, pai de Laurita.
Gosto pela leitura ela sempre teve. Seu primeiro livro lido foi aos oito anos. Outras dezenas e dezenas vieram depois - romances, principalmente. Durante um tempo eu lia tanto que tinha muitas fichas de biblioteca- lembra. O gosto é o mais eclético possível - adora Jorge Amado e Eça de Queiroz, lê livros de psicologia e admite também ter lido e gostado muito do clássico Polyana. Se fosse para citar uma influência decisiva, ela aponta o avô Nicanor.
O mais incrível: ela é uma moça de 17 anos - completa 18 em maio - que, ao contrário de outras da mesma idade, cuida do intelecto. Tanto que escreveu um livro o que, à princípio, pode não ser nenhum fato extraordinário mas é, no mínimo, admirável. Para mim não existe esse negócio de dom para escrever; existe força de vontade. E isso eu tenho- admite. Está nascendo uma nova escritora embora eu ainda não me sinta uma escritora- assume. Longa vida à nova escritora!


