Nas veredas da alma
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 26 de março de 1998
Zeca Corrêa Leite 
O homem perdeu o confortável lugar no paraíso, pela xeretice em querer saber o gosto da fruta da árvore do conhecimento. Fausto, de Goethe, toca no mesmo assunto e Urfaust, que se baseia na obra do filósofo alemão, traz mais uma vez a discussão sobre a ética, os limites humanos e suas transgressões, ambicionando o além. A peça montada pelo grupo Satyros, estréia hoje no Guairinha.
A leitura nossa é ultramoderna, explica o diretor Rodolfo Garcia Vázquez. A encenação foi feita sobre a primeira parte da primeira versão das três escritas por Goethe. Este é o nosso Fausto primitivo, diz Vazquez, embora o clima seja o mais atual possível.
O cenário, reproduzindo uma catedral gótica, terá os vitrais do templo com símbolos de windows, como se fosse tela de computador. Os personagens trazem as cabeças cobertas com um fino tecido, onde estão acopladas placas de computador.
Um telão exibirá imagens em vídeo e cenas do que está ocorrendo no momento, através de câmeras colocadas em lugares estratégicos. Até mesmo a música terá um referencial cyber. Com referenciais tão modernos e inseridos no cotidiano, o personagem Fausto, no mundo real, não poderia ser outro, na opinião do diretor, senão o dono da Microsoft, Bill Gates.
Quem é Fausto? É o homem que deseja adquirir o conhecimento, que anseia muito mais que os limites impostos. Há um pouco dele em cada um, à medida que aumenta a insatisfação. E Mephisto é o elemento desestruturador de tudo que é parado, plácido e pacífico. Ele dá a convulsão, ele dá e tira, cria o paradoxo, diz o ator Maurício Lima, apaixonado pelo personagem.
O que me fascina em Mephisto é a busca do prazer humano, continua. Sua presença é sorrateira, um rato que está roendo seu sapato. Você tem que se mexer. Margarida, interpretada por Teresa Seiblitz, seria o contraponto. É o tipo da pessoa que não deixa partir o elo com os interiores da alma.
Enquanto Goethe colocava a questão da ciência como algo natural, misturando-se com a existência humana, na era moderna a tendência é situar o progresso tecnológico num plano de distanciamento, como se não houvesse essa interligação, critica o diretor Vázquez. A tecnologia é um braço do homem.
O problema é saber divisar, hoje, a ética da antiética. A ciência ultrapassou barreiras e foi além - seria este avanço o ideal para a condição humana? As respostas são múltiplas, como as opiniões sobre a clonagem. O homem passou a brincar de Deus, ambicionando o faz-de-conta de um ser divino superior. Até onde é lícito o poder dos seus atos?
Urfaust não aponta caminhos, nem dá respostas. A peça apenas mostra à platéia o discurso e possíveis consequências dos planos idealizados. Mas para o ator Ivam Cabral, a presença de Mephisto - que poderia ser simbolizado pela sede jamais saciada - é a mola mestra do desenvolvimento.
Ele é o que nos leva. Sou do interior e poderia ter ficado lá, trabalhando na Prefeitura, ter casado e gerado filhos. Saí, vim para Curitiba, fui à Europa e quero mais. Por aí se vê que na montagem desta noite, a voz da alma humana estará rondando crédulos e incrédulos em busca dos caminhos da vida.
Urfaust - de Goethe, direção de Rodolfo Garcia Vázquez. Com Teresa Seiblitz, Ivam Cabral e Maurício Lima. No Guairinha, hoje às 21h30, e amanhã às 20h. Ingressos: R$ 17,00.


