Cláudia Raia não acredita que possa encarar qualquer personagem. A contar seus papéis na tevê, porém, parece que ela tem uma galeria ilimitada de tipos. Já encarnou, por exemplo, a ''sapata'' Tonhão do humorístico ''TV Pirata'', a tentadora Engraçadinha da minissérie ''Engraçadinha, Seus Amores e Seus Pecados'', baseada na obra de Nélson Rodrigues, a escandalosa Tancinha, de ''Sassaricando'', e a gelada Ângela, de ''Torre de Babel'', duas novelas de Sílvio de Abreu. A convite do mesmo autor, a atriz pensou ter extrapolado com a transexual Ramona de ''As Filhas da Mãe''. Mas a vampirona Mina, de ''O Beijo do Vampiro'', rompeu a fronteira da mortalidade e foi ainda mais longe. ''Ela pode tudo. E eu gasto horas de produção: uso aplique, lente, prótese, viro uma velha encarquilhada e até morcego'', diverte-se, referindo-se às mutações que sofre na novela de Antônio Calmon.
Cláudia faz o papel destinado, inicialmente, à atriz Christiane Torloni, que optou em protagonizar a próxima novela das oito, de Manoel Carlos. ''Fico honrada porque a Christiane é bárbara. Mas o Calmon disse que a Mina era a minha cara e fez questão de me ter na novela'', despacha. De fato, o autor terá de mudar a história em função da atriz. Afinal, Mina é infértil e Cláudia está grávida de cinco meses. Antes de aceitar o convite, a atriz avisou que ela e o ator Edson Celulari pretendiam encomendar um irmãozinho para Enzo, de cinco anos e, talvez, ele já estivesse a caminho. ''O Calmon garantiu que, assim, a trama ficaria ainda melhor'', conta Cláudia, que espera uma menina. Já a vampira pós-moderna vai se submeter a uma inseminação artificial.
Você havia destinado este ano para tirar férias de novela, montar uma peça e ter mais um filho. Por que mudou de idéia?
Simplesmente não deu para resistir à Mina. Ela é engraçada, poderosa, louca, má, profundamente sensual... Estou amando fazer esta personagem. Só de ler o roteiro eu dou risada. É o tipo de humor que eu gosto e sei fazer. Mas em nenhum momento pensei em abrir mão de engravidar nem de esconder minha barriga. Era minha condição para estar na novela.
A Mina é estéril e este é um ponto-chave da trama. Mas o autor de ''O Beijo do Vampiro'', Antônio Calmon, aceitou mudar os rumos da personagem para que você pudesse interpretá-la grávida...
E fiquei muito feliz por isso. Quando o (diretor) Marcos Paulo me chamou, eu disse que tinha o projeto de engravidar esse ano e talvez o neném já estivesse até a caminho. Ele avisou ao Calmon, que pediu um tempo para pensar. Duas horas depois, ele ligou e disse que me queria de qualquer jeito. Que mudava até a história porque eu era a cara do papel. Não tive nenhum sintoma e comecei a gravar sem saber que estava grávida. Assim que descobri, falei com o Calmon. Ele me garantiu que a história vai ficar ainda melhor com uma vampira barriguda!
Como você define o humor de ''O Beijo do Vampiro''?
É dosado com ironia nos diálogos, um toque de maldade... O Calmon está inspiradíssimo! E eu só consigo ser engraçada quando também acho graça. A Mina tem tiradas inacreditáveis e brinca o tempo todo com seus poderes de vampira. E como é de uma casta superior, ela faz o que quer com as pessoas: manipula, transforma, chupa, mata... Mas não tem sangue. É tudo bem ''clean''. Afinal, estamos numa novela das sete!
E quanto à Mina? Quais foram os artifícios que você encontrou para compor a personagem?
Não busquei nada específico em livros ou filmes porque a gente quis criar um tipo que fugisse de tudo que já se viu. A maquiagem é diferente, com um toque só dela. A Mina tem um figurino ousado, que não segue um único estilo. Vai do chinês ao nórdico, sempre em tons escuros. E quando ela fica brava e se transforma em morcego? Os dentes crescem, os olhos ficam amarelos, o cabelo vira uma juba laranja... Como se ela estivesse toda arrepiada. É uma loucura! Eu compus a personagem a partir desses elementos. O mais difícil é que preciso ficar sempre atenta à continuidade. A gravação é interrompida até quatro vezes para mudanças. Botar aplique, lentes de contato, caninos... Realmente, é uma novela trabalhosa de fazer.
Nélson Rodrigues, por exemplo, tem obras mais densas e você está na reprise de ''Engraçadinha''. Como é rever esse trabalho?
Agora, uma delícia! Mas foi, talvez, o papel mais difícil que já fiz. Foi também uma personagem que eu lutei muito para fazer. Ninguém acreditava que eu pudesse ser também uma atriz dramática. Diziam que era glamourosa demais e nunca seria uma mulher ''rodrigueana'' daquela que a gente encontra na rua. Mas eu sabia que podia fazer. Eu e a diretora Denise Saraceni.
Seu último trabalho na tevê viveu uma transexual, em ''As Filhas da Mãe''. Agora, você interpreta uma vampira... E, depois, o que virá?
Bom, o Marcos Paulo (diretor) já me disse para ir me preparando... Depois dessa, pode ser qualquer coisa. Um homem, um macaco, um extra-terrestre... Acho que um E.T. seria o máximo!

mockup