Ao longo de 25 anos de carreira, o jornalista Roberto Cabrini já cobriu diversos conflitos internacionais, como no Oriente Médio, Camboja e Afeganistão. Por conta disso, a direção da Band não hesitou em escalar o ex-correspondente da Globo e do SBT para ancorar o ''Diário da Guerra'', telejornal que narra as últimas notícias da ofensiva anglo-americana no Iraque. A estratégia deu certo. Logo na primeira semana do conflito, o ''Diário da Guerra'' triplicou a audiência do horário das 22 horas de 3 para 9 pontos, com picos de 12. ''O telespectador tem todo o direito de acompanhar o conflito, mas essa cobertura tem de ser isenta e equilibrada. Senão, corre-se o risco de 'espetacularizar' a guerra'', pondera.
Mas não é só na Band que Roberto Cabrini vem mobilizando a audiência. O SBT, semana passada, reprisou a matéria que Cabrini fez no Iraque em setembro de 95. Na ocasião, o então correspondente do ''SBT Repórter'' passou 50 dias na lendária terra das mil e uma noites castigada pelo embargo econômico da ONU. Até hoje, ele não esquece do dia em que visitou Halabja, cidade ao Norte de Bagdá, que foi destruída por armas químicas. ''Este talvez tenha sido um dos melhores trabalhos da minha carreira. Havia agentes iraquianos no nosso encalço o tempo todo. Mas sabia do risco que estava correndo'', valoriza.
Qual é o diferencial do ''Diário da Guerra'' na cobertura do conflito no Iraque?
O diferencial é buscar ouvir todos os personagens envolvidos no conflito. Na semana passada, por exemplo, entrevistei o embaixador iraquiano no Brasil. O formato do telejornal é dinâmico porque depende do que está acontecendo no local do conflito. Já houve dias em que fiquei quase cinco horas no ar. Mas a maior preocupação mesmo é com o tom do noticiário. Não queremos transformar a cobertura num espetáculo. O telespectador brasileiro tem o direito de saber o que está acontecendo do outro lado do mundo, mas essa cobertura tem de ser feita com isenção e equilíbrio.
Uma máxima do jornalismo afirma que, numa guerra, a primeira vítima é sempre a informação. Você concorda?
Sem dúvida. O ideal é que um número maior de emissoras pudessem cobrir a guerra ''in loco''. No Brasil, por exemplo, sempre se encontra dificuldades para conseguir vistos para o Iraque. E não é à toa. Saddam Hussein não quer que certas atrocidades sejam registradas pela imprensa internacional. Quanto mais veículos cobrirem o conflito, melhor para todo mundo.
Mas como você avalia o trabalho das redes CNN e Al Jazeera na cobertura da guerra?
O fato de eu dizer que a imprensa nos Estados Unidos é livre não significa que ela não seja suscetível a pressões. A censura que a Casa Branca está impondo às redes de tevê norte-americanas, como a CNN, é um atentado contra a imprensa livre. Mas isso sempre acontece em tempos de guerra. Cabe à imprensa, que se julga digna, resistir. Quanto à Al Jazeera, algumas matérias são bem tendenciosas. Mesmo assim, a presença de uma emissora árabe no conflito oferece maior equilíbrio na cobertura da guerra. O ideal seria, volto a dizer, que cada país pudesse enviar a sua própria equipe para o local do conflito.
Com toda a sua experiência, o que mais chamou a sua atenção na Guerra do Iraque?
Essa é uma das guerras mais impopulares em que os Estados Unidos já se meteram. Todos nós sabemos que Saddam Hussein já cometeu atrocidades inegáveis, mas a solução desse conflito tinha de ser empreendida pela ONU e não por um país que tem nítidos interesses comerciais na região.
Você passou 50 dias no Iraque em 1995. Qual é a lembrança mais forte que você guarda daquela viagem?
A cena que mais me marcou foi a minha ida às montanhas do Curdistão, ao Norte do Iraque, que abriga tropas separatistas. Lá, Saddam Hussein não tem vez. Pela primeira vez, temi pela minha vida ao me ver no meio de um fogo cruzado. Não podia recuar, nem avançar. O acampamento em que passei a noite era uma ilha cercada de tiros por todos os lados...

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