Nas trilhas do cinema
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 30 de dezembro de 1998
Nelson Sato 
A música para cinema virou uma mina de ouro. O estouro da trilha de Titanic, com mais de 10 milhões de cópias vendidas só nos Estados Unidos, comprovou o potencial lucrativo do gênero acompanhando as filas nas bilheterias.
No mundo inteiro, os títulos abundam nas prateleiras das lojas inflacionando um mercado já saturado deles. No Brasil, a última novidade na área é o pacote de lançamentos da nova gravadora ST2 Records, que criou uma divisão voltada para o filão, a MGM De Luxe Soundtracks Series.
O catálogo é de fazer sonhar o crítico de cinema londrinense Carlos Eduardo Lourenço Jorge, que prepara para fevereiro a estréia de um programa especializado em trilhas sonoras na rádio Universidade FM. A coleção da gravadora reúne tesouros da MGM (Metro-Goldwyn-Mayer), trazendo ao público trilhas de algumas das produções mais importantes do cinema americano como O Último Tango em Paris, Carrie, a Estranha e A Volta dos Sete Magníficos.
Numa previsão progressiva de lançamentos, a série vai abranger 50 títulos iniciais incluindo coletâneas temáticas específicas como O Melhor do Western e outras. Trilhas recentes também estão em pauta. É o caso de O Ouro de Ulysses, filme estrelado por Peter Fonda com indicação ao Oscar.
Há também raridades na fornada, com alguns álbuns jamais lançados em CD. Convém notar que o arquivo da MGM constituiu um dos maiores acervos musicais do século 20, o que parecer ter sido levado em conta no tratamento luxuoso conferido ao produto, no qual cada edição oferece remasterização do material original, música adicional e arranjos alternativos não registrados nas tiragens em vinil, diálogos originais do filme, uma faixa interativa (CD-ROM) com o trailer original da obra, textos assinados por críticos ou historiadores, fotos inéditas dos arquivos da MGM/UA e até (para a alegria dos colecionadores) a reprodução do cartaz do filme.
Vale observar ainda que os títulos da coleção pouca semelhança guardam com as trilhas atuais, verdadeiros balaios de gatos destinados a manter músicos pop em evidência. A palavra clássico, aqui, não soa exagerado para marcar a diferença e caracterizar obras compostas e executadas por nomes como Quincy Jones, Miles Davis, Duke Ellington, Henri Mancini, John Barry e outros de um time pra lá de respeitável.
Entre os lançamentos inaugurais da coleção consta O Último Tango em Paris, trilha assinada pelo saxofonista argentino Gato Barbieri para o polêmico filme de Bernardo Bertolucci. O álbum, que estava há mais de 20 anos fora de catálogo, traz 11 composições e 29 faixas extras. Estas últimas, que totalizam 27 minutos, não haviam sido registradas nas edições em vinil do disco. Compõem variações em torno do tema principal. Originalmente, destinavam-se a serem usadas apenas para enfatizar as cenas ou sequências do filme. Barbieri capricha na execução, ladeado pelo jazzista Oliver Nelson, autor dos arranjos orquestrais. 200 Motels é outro título já disponível nas lojas. O filme, realizado em 1971, documenta uma turnê imaginária do compositor Frank Zappa com sua banda Mothers of Invention. Desconhecida até por fãs do artista, a película mostra o ex-Beatles Ringo Starr em papel-duplo, interpretando o próprio Zappa e Larry, o Anão. Keith Moon, o baterista malucão do The Who, aparece como a Ardente Freira Tiete.
A groupie Pamela de Barres, famosa por suas proezas em quartos de hotel com rock stars nos anos 60, faz o papel de uma jornalista pop. O musical, inteiramente composto por Zappa, traz o Mothers of Invention ao lado da Royal Philharmonic Orchestra, com participação da soprano Phyllis Bryn-Julson. A trilha mostra o talento do compositor, que envereda pela música contemporânea de vanguarda, a ópera e o rock - este em canções como Mystery Roach, She Painted Up Her Face, Daddy, Daddy, Daddy e outras três ou quatro de um total de 34 faixas.
Remetendo à estrutura de uma ópera-rock, 200 Motels chega ao público brasileiro num CD-duplo, que inclui uma faixa interativa (CD-ROM) com o trailer original do filme, um livreto de 56 páginas, fotos inéditas e um poster formato 24x37 cm. Completam o álbum 4 spots promocionais de rádio, usados para o lançamento do filme e uma versão editada da faixa Magic Fingers, distribuída na época apenas para badalar o projeto.
O décimo filme da série 007 também tem sua trilha sonora lançada no pacote. Octopussy traz, como de praxe, a assinatura do inglês John Barry. O compositor, cuja carreira é vinculada ao cinema, reitera nesse trabalho a narrativa musical que acompanha as façanhas do célebre agente secreto desde o precursor DR. No, de 1962.
Em Octopussy, o maestro traz All Time High, parceria com o letrista Tim Rice e cantada por Rita Coolidge. O álbum foi lançado originalmente em 1983 e colocado à venda por tempo limitado, o que o tirou de circulação rapidamente. Desde então, criou-se uma certa aura cult em torno dele, obrigando colecionadores a desembolsarem até US$ 250 dólares no mercado paralelo para obtê-lo.
Menos badalados, mas não menos dignos de nota são as trilhas de Paris Vive a Noite (Paris Blues), A Volta dos Sete Magníficos (Return of the Magnificent Seven) e o CD contendo as músicas de No Calor da Noite (In the Heat of the Night) e Noite sem Fim (They Call Me Mr. Tibbs).
O primeiro traz composições de Duke Ellington e participação de Louis Armstrong. O segundo reúne faixas assinadas por Elmer Bernstein. E o álbum com as duas trilhas apresenta temas criadas por Quincy Jones, com Ray Charles soltando seu vozeirão em duas músicas de No Calor da Noite. A coleção prossegue com o lançamento nas próximas semanas de títulos como Quanto Mais Quente Melhor, O Calhambeque Mágico e Crown, o Magnífico.
Algumas trilhas serão lançadas posteriormente em formato de kits reunindo numa única embalagem o Homevideo, o CD e um livreto com detalhes de produção e filmografia de elenco e compositores.


