NAS TELONAS Emoção nas telas brasileiras
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de abril de 2008
Catarina Scortecci<br> Equipe da Folha 
Eleito melhor longa pelo júri oficial do Festival do Rio do ano passado, o filme brasileiro ''Mutum'' (95 min.), em cartaz num único cinema de Curitiba, é uma grata surpresa. O roteiro, baseado em obra de João Guimarães Rosa, revela o mundo de Thiago, um menino de 10 anos que vive com sua família num local isolado dentro do sertão mineiro. A sinopse pura, ainda que se deduza algum desdobramento, obviamente, não é de pronto atraente (nem as poltronas da Cinemateca, único local onde o filme está em cartaz). O som, em especial logo no começo da produção, também não está ideal. A dificuldade inicial em escutar o que os personagens articulam na tela quase chega a comprometer a obra.
Ainda no início, outra desconfiança: o espectador por um momento pode achar que está diante de apenas um filme sobre o sertão, ou de apenas um filme sobre o olhar do menino Thiago em relação a ''temas adultos'', como violência, traição, morte. As duas coisas, na verdade, estão bem presentes - tanto o cenário visceral quanto o olhar ainda ingênuo do menino -, mas, ao longo da produção, fica claro à platéia: trata-se de um filme que não se restringe aos motes fáceis. ''Mutum'' é arrojado e bastante emocionante.
Dirigido por Sandra Kogut, ''Mutum'' ainda se utiliza em mais de um momento de uma estética complexa, semelhante até ao traço da cineasta argentina Lucrecia Martel (de ''O Pântano'', de 2001, e ''Menina Santa'', de 2004) cuja obra (ainda que questionável) tem trazido um ineditismo à sétima arte. Grosso modo, trata-se de, em detrimento da narrativa (da suposta necessidade de contar uma história), tentar captar as sensações, os momentos, os olhares - difíceis de serem registrados pelas câmeras. Em ''Mutum'', as lentes optam por privilegiar as risadas longas do Thiago ou por mostrar a concentração das crianças enquanto brincam na terra, por exemplo. É como se a câmera passasse ''à margem'' de um acontecimento real, sem interferir nele. Assim, a vida de Thiago ganha contornos, também, ''reais''. Surpreendente, seja por influência argentina ou não.


