NAS TELONAS A (não) história de Brasília
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 29 de abril de 2008
Catarina Scortecci<br> Equipe da Folha 
O documentário brasileiro ''Romance do Vaqueiro Voador'' (71 min.), em cartaz num único cinema de Curitiba, conta um trecho do lado trágico da construção de Brasília, entre as décadas de 50 e 60. No período, trabalhadores anônimos, em sua maioria de origem nordestina, foram convocados a participar da principal obra do arquiteto Oscar Niemeyer, hoje uma das cidades mais impressionantes do mundo. Parte deles, revela o documentário, ainda que influenciados pelo clima de entusiasmo em torno da idéia de uma nova capital brasileira, permaneceram em seus postos de trabalho porque não havia outra opção, outra forma de sobrevivência.
Em condições precárias, incluindo falta de informação sobre os riscos, muitos candangos (como eram chamados os ''construtores'' de Brasília) morreram ao cair dos ''esqueletos'' dos prédios que levantavam arduamente. A tragédia era quase diária e aparentemente não acompanhada pela mídia ou organismos da sociedade civil, ambos distantes daquele evento - cujo registro parecia se resumir, na época, em imagens sobre a concretização de um plano ambicioso do então governo federal.
Dirigido por Manfredo Caldas, ''Romance...'' se utiliza de dois fios narrativos, sempre conduzidos pelo ator Luiz Carlos Vasconcelos. Parte do longa é dado ao ''vaqueiro voador'', personagem do poema homônimo de João Bosco Bezerra Bonfim, e que é interpretado pelo ator. O ''vaqueiro voador'' dá a base ''poética'' (bastante presente) do documentário. Paralelamente, o mesmo ator, na pele de alguém que está pesquisando o assunto, colhe depoimentos de pessoas que trabalharam na construção de Brasília e percorre locais marcados pelos fatos revelados. O ponto de encontro entre as linhas narrativas está na figura do ''pesquisador'', envolvido emocionalmente com a morte do ''vaqueiro voador''.
O documentário infelizmente abandona os dados precisos (talvez até pela dificuldade em encontrar informações oficiais sobre as mortes, por exemplo) e também não aponta responsabilidades - o ''buraco'', proposital ou não, acaba tapado por cenas poéticas. De todo modo, trata-se de um importante resgate histórico. Já serve de ponto de partida para ir a fundo num período ainda nebuloso na história do País.


