Já nas primeiras cenas de ''Feliz Natal'', primeiro longa dirigido por Selton Mello, em cartaz em dois cinemas de Curitiba, fica a pergunta: é preciso chegar tão perto para aproximar-se dos personagens? A câmera acompanha a respiração ofegante, as marcas da idade. Não dá trela. Por diversas vezes, chega próxima de encostar-se nos atores. Leonardo Medeiros é Caio, homem de meia-idade que, depois de anos vivendo e cuidando de um ferro-velho no interior, volta à capital Rio de Janeiro para visitar os familiares no dia de Natal.
O feliz acaba no título e a trama trata de uma família disfuncional. Aqui, tal como em ''O Pântano'' (2001), da argentina Lucrecia Martel, o desastre é anunciado; pode chegar a qualquer momento. Ainda que os dois filmes tratem de uma família de classe média em crise irrecuperável, há diferenças brutais.
Enquanto a argentina trata do extracampo, daquilo que não vemos na tela, Mello fala do que está em cena. Seus atores não abandonam o quadro cênico. Não há tomadas de paisagem ou natureza morta. São os corpos e as ações dos personagens que determinam os passos da câmera. E acompanhamos de perto.
Medeiros, com quem o diretor havia contracenado em ''Lavoura Arcaica'' (2001), mais uma vez apresenta uma boa performance. Para seus próximos trabalhos no cinema, fica outra pergunta: será o ator capaz de se reinventar? Já Mello, que havia feito apenas um curta-metragem como diretor (''Quando o Tempo Cair'', em 2006, disponível na internet), surge como uma incógnita. Faz um filme irregular, que cresce à medida que abandona sua vontade de causar efeitos no espectador.

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