NAS TELONAS
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 03 de junho de 2008
Catarina Scortecci<br> Equipe da Folha 
''Um Beijo Roubado'' (90 min.), filme que no último sábado esteve em pré-estréia em Curitiba, parece um tímido Wong Kar-Wai, diretor chinês conhecido pelas construções nada convencionais nas telonas. O ponto de partida é Elizabeth (papel interpretado pela cantora Norah Jones), que acaba de romper um relacionamento amoroso, e Jeremy (o ator Jude Law), à frente de um modesto café, onde atrás do balcão se acostumou a ''assistir'' trechos da vida de muita gente.
Mesmo atraídos um pelo outro, Elizabeth resolve viajar. Arruma empregos e tenta juntar dinheiro para comprar um carro. No meio do caminho, ela assiste a outras historietas e conhece pessoas que de alguma forma a ajudam a voltar para o café de Jeremy - que, mesmo sem saber direito onde está Elizabeth, permanece à sua espera.
A sinopse soa comédia romântica, mas na obra felizmente não há evidências explícitas do gênero. Na verdade, Wong Kar-Wai, em seu primeiro filme em inglês, está mais preocupado em retratar a delicada transformação de Elizabeth - ainda que também não a coloque no centro de tudo, como poderia sugerir a cartilha norte-americana (pena que Norah Jones, em sua estréia nas telonas, pareça insossa em mais de uma cena).
A delicadeza de ''Um Beijo Roubado'' fica por conta principalmente da plasticidade especial do filme, característica dos trabalhos do diretor. A idéia talvez seja produzir efeitos poéticos: uma câmera instável parece sair borrando a imagem, o que dá força à aflição de Jeremy. Bonito, principalmente porque combinado com uma trilha singela.
Mas a inovação estética que tornou o diretor chinês conhecido no cinema não sustenta todo o filme, como ocorreu nas suas duas últimas obras, ''2046'' e ''Eros'' (conjunto de três ''filmes'' de diretores diferentes), ambos de 2004. Um Wong Kar-Wai tímido diminuiu os artifícios imagéticos e ficou adepto à construção linear em ''Um Beijo Roubado''. Quase deixa de lado sua própria invenção.


