NAS TELONAS
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de março de 2008
Catarina Scortecci<br> Equipe da Folha 
Em cartaz nos cinemas de Curitiba, o aguardado ''Não estou lá'' (135 min.), sobre a vida e a obra do cantor e compositor norte-americano Bob Dylan, é um balde de água fria para quem esperava um mínimo de honestidade. Pois, no filme, Dylan é apenas um mito e, portanto, não há qualquer obrigação em desnudá-lo.
O diretor de ''Não estou lá'', Todd Haynes, o mesmo do ruim (ainda que relevante) ''Velvet Goldmine'' (1998), utiliza sem problemas elementos claramente irreais com alguma habilidade (Dylan é interpretado por artistas diferentes na película, entre eles a atriz Cate Blanchet e o ator Heath Ledger, morto no final de janeiro após atuação inesquecível em ''O Segredo de Brokeback Mountain''). O problema é que, ao se liberar do vínculo com a realidade, o filme vai ao outro extremo e peca pela idolatria exacerbada.
O filme revela com um entusiasmo até ingênuo, mas convicto, que absolutamente tudo que sai da boca de ''Dylan'' merece registro no livro dos Deuses. Beira a deturpação, mesmo para a ótica do fã.
Independente do valor que Dylan tem para cada espectador e sem entrar no mérito da qualidade artística do cantor e compositor, o filme acaba se mostrando arriscado. Pois ainda que não tenha valor documental, brincar com a representação do real às vezes pode soar desonesto.


