''Não por acaso'' (94 minutos), filme de Philippe Barcinski nas telonas de Curitiba, tem características raras se levarmos em conta a maioria das produções hoje em cartaz - cheias de ação ou, na outra ponta, diálogos intensos. Ao optar por tratar da imprevisibilidade da vida, ''Não por acaso'' é sabidamente uma produção extremamente delicada, silenciosa e bonita. Pena, porém, que o filme não opta pela introversão até o último instante, e acaba pecando ao dar um final típico daquelas comédias românticas produzidas em série.
O filme retrata dois personagens. Ênio (Leonardo Medeiros), que administra o tráfego na cidade de São Paulo, e Pedro (Rodrigo Santoro), que constrói mesas de sinuca. Ambos levam para o cotidiano íntimo a mesma precisão e regra necessárias nos seus respectivos empregos. O fim da ''linha reta'' para Pedro é quando sua namorada, Teresa (Branca Messina), morre ao ser atropelada nas ruas de São Paulo. O acidente também marca, de certa forma, o início da transformação de Ênio, absorto numa rotina certa, sem falhas, e só ''maculada'' quando sua filha Bia (Renata Batata), com quem nunca teve contato, bate à sua porta.
A partir daí, o filme é a trajetória de ambos até a aceitação da ''imprevisibilidade'' da vida, da falta do controle, até então onipresente. No final, porém, o diretor do filme opta pelo espetáculo. Os dois personagens se libertam em ações desesperadas. Ênio chega a paralisar o trânsito de São Paulo para manter Bia por perto. Já Pedro atravessa correndo uma cidade inteira para chegar à porta de Lúcia (Letícia Sabatella), com quem tenta se relacionar após a morte de Teresa. Cenas com o mesmo apelo das comédias românticas fáceis e da frase escrita no cartaz do ''Não por acaso'': ''Dois segundos podem mudar a sua vida''.
Outro ponto negativo é a construção do personagem de Santoro, que às vezes prioriza o sujeito tímido, sem estudo, de olhar baixo, e outras vezes escapa para um estilo galã, seguro das suas atitudes. Diferente do personagem de Medeiros, que se revela mais sólido. Mas o ingresso vale mesmo pela delicadeza da narrativa, sempre difícil de colocar em prática. E pelas imagens impressionantes de São Paulo, o terceiro ''protagonista'' do filme.

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