Nas telas, 'Ponto Sem Retorno': o apocalipse calmo
Em cartaz em Londrina, filme pode ser consideradao o mais humilde, sensível e poético de Riddley Scott
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 02 de setembro de 2026
Em cartaz em Londrina, filme pode ser consideradao o mais humilde, sensível e poético de Riddley Scott
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 

Desde que experimentou um renascimento criativo com “Prometheus” (2012) – um retorno iconoclasta ao universo narrativo construido com o clássico “Alien, o Oitavo Passageiro” (1979), Ridley Scott tem se dedicado a uma sequência variada e interessante de filmes: “O Conselheiro do Crime” (2013), “Perdido em Marte” (2015), “Todo o Dinheiro do Mundo” (2018) e “O Último Duelo” (2021).
São propostas voltadas para adultos que pensam, feitos com orçamentos generosos, oferecendo uma alternativa decente à infantilização do “mainstream” do novo milênio — um território quase sempre adepto da mediocridade, da repetição e da estupidez. O cineasta inglês mantém agora essa trajetória recente com “Ponto Sem Retorno/The Dog Stars” (2026), em segunda semana de exibição em salas de Londrina.
Trata-se de obra que se destaca como seu filme mais humilde, sensível e poético em muitos anos – um detalhe paradoxal, visto que Scott sempre foi artista extremamente ambicioso, mas que aqui domina o cenário típico do cinema de ação ou de uma epopeia apocalíptica de sobrevivência, concentrando-se no desenvolvimento dos personagens e, especificamente, em adversidades que coincidem com ( ou antecedem) o colapso repentino em si, a semente do trauma.
À primeira vista, “Ponto Sem Retorno” parece caminhar para uma mistura das sagas iniciadas por “Mad Max” (1979), de George Miller, e “Extermínio” (2002), de Danny Boyle, de um lado, e as três adaptações de “A Última Esperança da Terra” (1971), e “Eu Sou a Lenda” (2007), de Francis Lawrence de outro.
No entanto, o roteiro de Mark L. Smith, baseado no livro “Star Dogs” do americano Peter Heller, vai revelando aos poucos uma personalidade própria e inusitada, fundamentada no desempenho dramático desse (para mim) muito estimado Ridley Scott, já com impressionantes 88 anos nas costas. Ele retoma, em parte, a meticulosidade e o humanismo visceral do início de sua carreira no cinema – embora sem aquele preciosismo na fotografia e no design de produção –, período que abrange trabalhos como os refinados “Os Duelistas” (1977), “Blade Runner” (1982), “Chuva Negra” (1989), “Thelma & Louise” (1991), “1492: A Conquista do Paraíso” (1992) e o já citado “Alien”.
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Tudo se passa em um futuro não muito distante, no qual a maior parte da humanidade foi dizimada por uma pandemia de gripe que força a convivência de dois homens de personalidades opostas num aeroporto abandonado no Colorado: Bangley (Josh Brolin), sobrevivente de inclinação fascista e veterano dos Marines que perdeu a família e adora exterminar as "baratas" – termo usado para se referir aos outros seres humanos, especialmente às ameaçadoras gangues selvagens que rondam o local – e Hig (Jacob Elordi), mecânico de coração compassivo que pilota um velho monomotor, recupera alimentos e outros suprimentos na capital, Denver, ama seu cachorro Jasper e chora a morte da esposa, Melissa.
SINAL DE RÁDIO
Após a morte do cão durante incursão das "baratas", Hig, que luta contra uma depressão, decide deixar o refúgio compartilhado com Bangley. Ele planeja voar até o aeroporto de Grand Junction, também no Colorado, movido pela esperança despertada por um sinal de rádio no qual se ouve a voz de uma mulher. No entanto, o avião sofre uma pane e ele é obrigado a fazer um pouso de emergência; isso o leva a conhecer Pops (Guy Pearce), um antigo rei do gado que vive em uma fazenda em ruínas com a filha, Cima (Margaret Qualley), uma ex-estudante de Medicina, com quem o piloto acaba desenvolvendo aos poucos um vínculo romântico.

Ridley Scott extrai atuações estupendas de todo o elenco, especialmente do australiano Elordi (seu melhor e mais “humano” personagem depois da criatura em “Frankenstein” ou como Heathcliff em “O Morro dos Ventos Uivantes”), e não se deixa levar pelo excesso nas sequências de ação, embora demonstre sua maestria durante a quase morte de Bangley e a chegada tenebrosa a Grand Junction, em episódio hilário e refrescante. E sem dúvida soube aproveitar a simplicidade louvável da história do roteirista Mark Smith, demonstrando sabedoria em manter a narrativa desacelerada e dedicar mais tempo aos quatro personagens centrais, deixando em absoluto segundo plano, e num cenário impreciso, a gripe e aquelas cansativas ameaças brutais que lembram zumbis, infectados ou vampiros.
Em suma, o filme funciona muito mais como um neo-western de cura espiritual ou psicológica dentro da ficção científica especulativa (é bom saber e lembrar que o livro é de 2012, anterior portanto à pandemia de coronavírus ) do que como mais uma banal aventura épica em cenário pós-apocalíptico. Como boa parte da critica mundial que abominou o filme gostaria de ter visto...





