A luz é dramática até dizer chega e está ali, logo de cara, na entrada dos personagens ainda crianças em uma caverna. O lema do filme gaúcho ''Cerro do Jarau'' (2005), de Beto Souza, agora disponível nas locadoras, é ''as lendas e o rock são eternos''. E dá um pouco da tônica da proposta: uma mistura estranha. A luz excessiva, repleta de sombras, vai do começo ao fim. O tom de comédia lembra bastante dos filmes dos Trapalhões, especialmente pelos vilões caricatos. Enquanto isso, as interpretações mesclam estilos diversos, como se personagens e atores de diferentes filmes acabassem reunidos.
No caso das atuações dos protagonistas, cada um vai para um lado. Rebeca (Lu Adams) descobre que seu marido, Bento (Tarcísio Filho), está mais uma vez devendo uma grana. Eles venderam sua casa noturna para o bandido Correntino (Miguel Ramos), que promete sempre pagar no dia seguinte, o que não acontece. Logo, o casal vai reencontrar seu território de infância, no Sul, perto da Argentina e Uruguai.
A colagem, mistura entre o sério e o escatológico, o bufão e o contido, encontra, por mais estranho que seja, certa coerência. A voz em ''off'' do narrador assume um tom de fábula, de era uma vez, e serve como explicativo. Em um momento avisa o público que, sim, o personagem está dentro do caixão. Sobre o vilão Bandiolo, a voz, que é do filho de Tarcísio Meira, diz. ''Psicopata sadista, cujo pai foi torturador do Dops durante a Ditadura.''
Em meio ao humor escatológico, a narrativa busca a seriedade. Como na cena em que Rebeca chora debaixo do chuveiro depois de ser violentada. Do começo ao fim, o filme parece tentar se encontrar, em dúvida se está se levando a sério para, no fim das contas, assumir-se como uma parábola sobre a vida.

mockup