Há exatamente 40 anos Martin Scorsese deslumbrou a cinefilia mundial com uma jornada selvagem e descompromissada pelos confins de Nova York em uma única noite.

Era “After Hours/Depois de Horas”, de 1985. Portanto, não é por acaso, e certamente é uma homenagem do diretor Darren Aronofsky, incluir o ator daquela produção, Griffin Dunne, em um pequeno papel coadjuvante em seu mais recente filme, “Ladrões/Caught Stealing”, ambientado no East Village da Big Apple e entrando nesta quinta-feira (4) em segunda semana de exibição em Londrina.

É um trabalho surpreendentemente divertido, quase comercial (quase: assista e sinta por que) , do cineasta por trás de filmes como “Pi”, “Réquiem para um Sonho”, “O Lutador”, “Cisne Negro”, “A Baleia”, “mother!”, entre outros dramas sempre pesados ​​e sombrios que definiram o selo de sua carreira. Todos os diretores (não absolutamente todos: Bergman é exceção que reafirma a regra), por mais tortuosas que funcionem suas mentes, precisam de uma chance para relaxar e se divertir, e embora este “Ladrões” também seja sombrio em alguns momentos e definitivamente violento em outros, não deixa de ser um alívio testemunhar esta bem humorada pausa, digamos, existencial no mundo real habitado frequentemente por Aronofsky.

O que torna um filme de Darren Aronofsky um sucesso neste momento? (“Ladrões” vem fazendo boas bilheterias onde tem estreado.) Ele se tornou um diretor incrivelmente difícil de definir, especialmente nos 15 anos desde que recebeu sua indicação ao Oscar de Melhor Diretor por “Cisne Negro”. Na última década e meia, realizou seu filme de maior bilheteria, o ousado épico bíblico “Noé”, criou o polêmico e maluco “mãe!” e rendeu a Brendan Fraser um Oscar por “A Baleia”. Mas um fator que conecta muitos dos filmes de Aronofsky desde o início de sua carreira é a obsessão e o vício, seja por comida, amor, grandeza, drogas ou alguma combinação desses, e como isso pode mudar completamente sua vida para pior, bem mais frequentemente do que para melhor.

COMÉDIA POLICIAL

À primeira vista, “Ladrões” parece o filme menos Aronofsky que o diretor já fez: uma muito acessível comédia policial e de suspense, com uma trama de muitas voltas e não poucas reviravoltas, muitos tiros e pancadaria envolvendo a grossa flor da pior marginalidade miúda e graúda, máfias exóticas e caóticas, letais assassinos trapalhões mais ou menos ao estilo daquela bem sucedida parcela da filmografia de Guy Ritchie. É o que se obtém quando se misturam as sensibilidades essenciais de Aronofsky, livres de obscuridades e pesadelos em linha freudiana direta, com um projeto mainstream. O resultado é uma emoção absoluta.

Depois de se libertar de “Elvis”, Austin Butler vem trilhando caminhos interessantes, e mostrado muitas habilidades como intérprete .“Ladrões” é o maior exemplo de que ele tornou-se um astro desde seu quase Oscar naquela cinebiografia. Não só é charmoso quando necessário, e alguém por quem sentimos compaixão, como também é um excelente protagonista que queremos seguir pelo mundo afora (ou Nova York, pelo menos). Aqui, Butler prova que é o tipo de ator que poderia ser um astro de ação convincente, mas também dominar as cenas emocionais quando o filme exige.

Podem dar crédito a este astro/ator, Austin Butler, por apresentar um sujeito simpático, frustrado, desorganizado e á beira do caos chamado Hank Thompson, que ama a mãe e demonstra um lado profundamente humano para esse tipo de filme de ação repleto de crimes, colocando o bem-estar de um lindo e quieto gato chamado Bud à frente do seu, mesmo com sua vida sendo ameaçada após ele inocentemente concordar em cuidar do pet de estimação do seu vizinho, Russ, um imigrante inglês punk rock que aparentemente tem muitos bandidos atrás dele em busca de uma chave que....bem, só vendo a trama na qual Hank sem querer se envolveu em nome do acordo para cuidar do bichano Bud.

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