NAS TELAS
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
Rafael Urban<br> Equipe da Folha 
''Tudo começa e termina com a experiência de estarmos vivos, com nossos sentidos e nossas observações sobre este mundo que nos cerca'', falou Luiz Fernando Carvalho, sobre a minissérie ''A Pedra do Reino'', a qual dirigiu para a tevê e que agora está disponível em DVD. Nas quase quatro horas de exibição, divididas em cinco episódios e dois discos, acompanhamos a história narrada por Dom Pedro Diniz Quaderna que mistura personagens históricos com passagens fictícias.
O cenário é Taperoá, cidade do interior da Paraíba e terra da infância de Ariano Suassuna, 80, autor de ''Romance da Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta'', que serve de base para o roteiro. A encenação é pressuposto básico e já de início vemos o personagem Quaderna sobre o palco surgir entre as cortinas. No primeiro dos cinco episódios, a narrativa é muito solta e de difícil acompanhamento, o que, em parte, explica o insucesso de audiência quando exibido na tevê, alcançando 12 pontos no Ibope em sua estréia - o horário, das 22h30 às 23h30, tinha a média de 25.
A partir do segundo capítulo, a trama ganha ares didáticos, em uma narrativa quase burocrática, enquanto Quaderna dá um depoimento como suspeito de ter matado o seu padrinho. Em um clima mitológico, com ares de Idade Média no Sertão, Carvalho, diretor de ''Lavoura Arcaica'' (2001) e da série ''Hoje é Dia de Maria'' (2005), constrói uma mítica Taperoá com profundo respeito à cultura local. A direção de arte é soberba e a dramaturgia, expressionista, em atuações que lembram do excesso do teatro, é tratada com uma postura de câmera que supera qualquer possibilidade de teatro filmado.
O resultado é a criação de um universo próprio e visualmente deslumbrante. Suassuna considerou a adaptação como a melhor de todas, ressaltando que se trata da obra que considera a mais complexa de sua trajetória. Justificou a falta de audiência por entender que Carvalho é um autor à frente de seu tempo.


