NAS TELAS
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 07 de outubro de 2008
Rafael Urban<br> Equipe da Folha 
Vladimir Carvalho parou no tempo e este talvez seja o maior mérito de ''O Engenho de Zé Lins'' (2006), seu longa-metragem mais recente e agora disponível nas locadoras. Irmão do diretor de fotografia Walter Carvalho, filma, como o faz há muito tempo, sem inovações de linguagem. Traz, porém, uma relação tão íntima e próxima do tema e dos personagens que seria difícil, de outro modo, ir além.
Nesta jornada, Vladimir apresenta a biografia de José Lins do Rego, escritor de entre outros romances ''Menino de Engenho''. Tal como o cineasta, Zé Lins nasceu no interior da Paraíba. A incursão pelo universo da infância de ambos é ilustrada por depoimentos emocionantes. Um entrevistador afetivo, Carvalho quase cai nas próprias armadilhas. Desvia do tema em uma fala peculiar de Ariano Suassuna ou em outra do ator mirim da versão cinematográfica de ''Menino do Engenho'' (1965), em que o entrevistado mostra suas proteções espirituais.
De maneira feliz, porém, a montagem trata de manter a coerência e o diretor logo retoma o eixo. O filme-depoimento - Eduardo Coutinho não é apenas uma referência, mas um amigo, com quem trabalhou junto em ''Cabra Marcado para Morrer'' (1984) - como um todo ganha força pela carga emocional das falas. Mérito para Carvalho, que soube deixar seus personagens falarem - a lembrança da fala cortada por João Moreira Salles em ''Santiago'' (2007) parece inevitável.
''O Engenho de Zé Lins'' é, também, um registro histórico. Ao final das filmagens, dois dos entrevistados, quase todos bastante idosos, já haviam falecido: a escritora e amiga Rachel de Queiroz e Maria Emília Vieira Cavalcanti, prima do escritor. Esta última revela o segredo familiar de que o jovem Zé Lins, por um tiro acidental, acabou por matar um menino no engenho em que moravam.
No depoimento final dos últimos dias de Zé Lins, relatados por Thiago de Melo, amigo que o acompanhou no hospital, resta a força da arte. Se pela razão seria possível dizer que o filme é tecnicamente limitado, através de sua carga e competência emocional, ''Engenho de Zé Lins'' ultrapassa a fronteira do mensurável.


