NAS TELAS
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 30 de setembro de 2008
Rafael Urban<br> Equipe da Folha 
A Cleópatra latina, de Júlio Bressane, por fim chegou às locadoras. Isso depois de inúmeros finais de semana em pré-estréia na capital - em que o filme, que leva o nome da egípcia, não chegou a entrar em cartaz. Alessandra Negrini, no papel-título, traz uma peculiar, se não bizarra rainha.
Bressane, dono de um cinema autoral, aqui no sentido de único, próprio, nos apresenta sua versão latina do mito. Bastante universal, do que poderia parecer uma péssima idéia - um épico de baixo orçamento rodado no Brasil de uma história tantas vezes contada - ''Cleópatra'' surge como um espetáculo visual e de linguagem. Ainda que não sustente toda a sua potência ininterruptamente.
Miguel Falabella surpreende e deixa saudade quando seu Júlio César sai de cena para dar lugar ao apático Bruno Garcia como Marco Antônio. O tom dramático, apresentado pela frontalidade do teatro, desafia o cinema. Cleópatra é, por fim, a mulher multifacetada: a que ama, despreza, apaixona e encanta. ''Não sou nada mais que uma mulher comum, dominada pelas mesmas paixões que dominam uma mulher comum'', diz a personagem.
A direção de arte dá um show à parte, trazendo soluções belíssimas e justificando a máxima de que boas idéias não dependem necessariamente de um alto orçamento. Já os diálogos, absolutamente líricos, divertem. Bressane, por sinal, filma como quem ri. Do alto de sua maturidade, tem o frescor da juventude, do novo.
''Cleópatra'' é, por fim, mais um marco na carreira do autor de ''Matou a Família e Foi ao Cinema'', de 1969, um dos clássicos da cinematografia nacional. O diretor, inclusive, acusa os cineastas brasileiros de serem conformados com sua condição de homens medíocres. Quanto ao talento de Bressane, ele está muito distante de qualquer média ponderável.


