Abaixa a saia. Abotoa o botão. Cuidados com os modos. O que é isso? ''Para que tanto abaixa a saia, abotoa o botão?'', questiona Ana Carolina, diretora de ''Das Tripas Coração'', filme de 1982 agora disponível nas locadoras em DVD. Seu longa não trata apenas de falsos moralismos, mas, como a própria já frisou, de identidade sexual.
Para isso, ela, uma das mais respeitadas realizadoras brasileiras, propõe a construção de um universo dentro de um internato para meninas visto pelos olhos de um interventor (Antônio Fagundes). A imaginação masculina enxerga ali um relato de depravação e de uma organização absolutamente corrupta e inescrupulosa. O médico não apenas bolina as alunas durante o exame médico, como algumas diretoras divertem-se com a cena enquanto outras professoras ignoram a situação.
Ainda que a construção dessa identidade sexual se dê, supostamente, através de um olhar masculino, o que vemos é a força de uma idéia absolutamente feminina. Esta, infelizmente, tão infrequente no cinema: tal como na década de 1980, hoje a maioria absoluta dos realizadores são homens.
Se podemos dizer que ''Das Tripas Coração'' seria escandaloso para a sua época, o longa não perde a sua força e, se passasse nos cinemas, hoje, não geraria menos discussão. O pecado e o sexo, atrelados e sempre presentes, percorrem o filme, construído com uma maturidade narrativa, técnica e autoral invejáveis.
Com metáforas, acompanhamos os dilemas da sociedade de uma época, muitos dos quais seguem presentes. Em sua estrutura, talvez seja um dos trabalhos que mais se relacione com filmes argentinos de sua época: a poesia verborrágica dos longas de Eliseo Subiela, a comédia de costumes com interpretações excessivas e mesmo o ambiente - o colégio -, espaço mais frequentemente utilizado pelo cinema argentino do que o nosso. Ana Carolina, porém, aproveita-se desses elementos com um domínio particular que a permite não cair no mesmo excesso despropositado.

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