Joãozinho desperta no meio da noite e diz. ''Acorda, velha, que eu estou passando mal.'' Já na primeira cena de ''Guerra Conjugal'', de Joaquim Pedro de Andrade, dá para sentir o clima da literatura de Dalton Trevisan. Amália, a esposa de Joãozinho, retruca. ''Fica quieto que passa. Foi o caldo de feijão. À noite, é indigesto, Eu mesmo disse.'' Depois, Joãozinho completa. ''Diabo de velha!'' O roteiro do filme de 1975, agora disponível nas locadoras em versão restaurada, foi baseado em 16 contos do escritor curitibano e é o único trabalho em longa-metragem desenvolvido a partir da obra de Trevisan.
Mais tarde, outras iniciativas, em curta-metragem, tentaram registrar o universo do escritor sem qualquer sucesso expressivo. ''Guerra Conjugal'', por outro lado, captura a força da obra, e, respeitando seus diálogos ágeis, e sua temática - escandalosa para a época, tendo sido proibido pelo regime militar (o mesmo vale para o também imperdível ''Vereda Tropical'', curta presente nos extras do DVD que conta a história de um homem que se relaciona com melancias) - faz um filme forte e ao mesmo tempo divertido. A cidade que aparece no longa, porém, não é a Curitiba que conhecemos, mas uma capital provinciana e universal, que surge como cenário de fundo, através dos sons do trânsito de carros que não vemos.
Dada a temática, de conflitos entre casais, as ações, quase contadas como episódios, se passam em interiores. Lima Duarte faz um majestoso canastrão, um advogado que se utiliza de todas as oportunidades para tirar proveito da suposta fragilidade feminina - ali permeada por toda uma dramatização. As interpretações do elenco, afinado à proposta, soam excessivas na medida certa. Todo o drama, todo o jogo de cena, parece, aqui, cotidiano, uma encenação do dia-a-dia. Sem pudores, tal como na obra de Trevisan, vemos a senhora nua, que, como já disse o diretor, teve a velhice vencida pela prostituição, e a comilona sem escrúpulos.
Joãozinho, o enfurecido do começo da história, num acesso de raiva diária, diz: ''Se você não está satisfeita, vá para a casa de tua mãe!''. Ao que Amália responde: ''Mas ela já morreu Joãozinho. A casa já foi vendida''.

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