Glauber Rocha. O nome soa forte como a sua presença no cinema brasileiro. Morreu jovem, aos 42, não sem antes causar escândalo, exaltar suas opiniões e trazer o debate intelectual, naquele momento voltado à Nouvelle Vague francesa, para o Cinema Novo, movimento do qual foi o grande destaque. Em ''Barravento'', de 1961, seu primeiro longa-metragem, deixa claras as suas intenções e proposta estética que percorreria sua carreira. O filme está disponível nas locadoras em versão restaurada em DVD, tal como boa parte de sua filmografia.
O longa se apresenta de maneira muito clara no texto de abertura. '''Barravento' é o momento de violência, quando as coisas da terra e mar se transformam, quando no amor, na vida e no meio social ocorrem súbitas mudanças.'' Na trajetória dos personagens, vemos essa busca por transformação, esse credo na mudança, ainda que vivam entre instituições antigas.
Ali, naquela pequena aldeia de pescadores no interior da Bahia, estado onde nasceu Glauber, está representado o País. A influência da cultura africana é declarada e rememorada a todo instante; seja no figurino, nas danças ou na trilha sonora, que antecipa todo seu uso excessivo, que permearia a obra do cineasta. Quando a música vem, ela aparece com força, sem medo de chegar. Esse exagero seria um ''continuum'' nos filmes de Glauber, ajudando a criar o clima rodeado de misticismo. Em ''Barravento'', ela se alterna com um silêncio absoluto, que reforça a tensão.
Diferentemente de ''Terra em Transe'', seu terceiro longa, aqui a fotografia não alcança todo o seu virtuosismo. Mas já indica, com auxílio de uma montagem primorosa de Nelson Pereira dos Santos, outro ícone do cinema brasileiro, que dali ainda surgiriam coisas grandes. No mesmo texto de abertura, o filme diz: ''Aceitam a miséria, o analfabetismo e a exploração com a passividade característica daqueles que esperam o rei divino''. Ali, em poucas palavras, está declarada a postura política de toda obra subsequente do cineasta.

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