Na abertura, escutamos a música tema de ''Tom & Jerry''. O gato e o rato, porém, não estão em cena, mas o ator Marco Ricca, no papel do escritor Heitor. A trilha sonora em ''A Via Láctea'' (2007), recém-chegado às locadoras, tem o papel de disfarçar, confundir ou mesmo recriar o que vemos na tela.
Na conturbada sequência do início do filme, ainda escutamos ''The Merry-Go-Round Broke Down'' - mais conhecida por abrir os desenhos da Looney Tunes - enquanto acompanhamos o escritor atravessar a rua de um lado para outro. O trânsito é tão personagem do filme quanto a trilha sonora no trabalho de Lina Chamie, que além de diretora de cinema fez mestrado em Música.
Quando Alice Braga, atriz coqueluche com participações recentes em Hollywood, entra em cena, o filme ganha ainda mais brilho. Sutil mas de presença marcante, a jovem que já passou por ''Cidade de Deus'' e ''Cinturão Vermelho'' - ainda inédito nas locadoras no qual contracena com Rodrigo Santoro - presenteia o espectador com Júlia, a enigmática parceira do escritor-protagonista.
A história do casal é narrada de maneira entrecortada, em uma repetição de momentos e reviravoltas características do cinema contemporâneo. O primeiro encontro se dá em uma peça no teatro Oficina, de São Paulo, em que o grupo Uzyna Uzona celebra um trecho de ''Wave'', de Tom Jobim: ''É impossível ser feliz sozinho...''. Ali, entre a literatura, a música e o drama, os dois protagonistas se conhecem.
O longa é um pote que transborda referências. ''Todo es mentira en este mundo, todo es mentira la verdad'', canta Manu Chao em uma das cenas. Para criar um ambiente entre a realidade e a imaginação, a diretora mistura modos de filmar, lentes e suportes - por momentos o que vemos é captado em digital, por outros, em película 16 e 35mm. O escritor Heitor, confuso entre o que vivencia e o que passa por sua cabeça, atravessa congestionamentos enquanto revisita sua memória. Nessa narrativa, recheada de poesia e encenação, o filme encontra coerência em um caos absoluto.

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