O caminho até a Penha era árduo. Para homenagear a santa instalada no bairro carioca, os fiéis empreendiam verdadeiras jornadas, seguindo caminhos tão diversos quanto os meios de locomoção de meados do século passado: carroças, cavalos e barcos deslocavam uma massa de populares que se reunia em atividade religiosa.
Mas, aos poucos, a presença popular injetou características pagãs à romaria. Mais do que adoração, a Festa de Nossa Senhora da Penha, realizada em outubro no Rio de Janeiro, se tornou uma manifestação que agregava blocos carnavalescos e batucadas entre rezas, promessas e penitências.
Os festejos da Penha marcam o início do Carnaval popular carioca. Lá o povo se reunia para celebrar a santa em manifestações de características subversivas, de confronto ou inversão de valores, em meio a barracas que vendiam objetos religiosos e pratos da culinária da região. Consequentemente, os aparatos de repressão se ampliaram, aumentando os conflitos entre populares, polícia e exército.
A repressão a manifestações populares, que contrariavam os hábitos das classes mais abastadas - preocupadas com conceitos de origem européia que designavam palavras como progresso e civilização para discriminar os fatos que ocorriam nas ruas do Rio de Janeiro durante o Carnaval - era frequente no século passado, e se estendeu até as primeiras décadas do século 20.
O conflito entre a festa popular e a elitista só diminuiria na década de 40, durante o governo Getúlio Vargas. É justamente este o período - da Belle Époque ao fim do Estado Novo - pesquisado por Rachel Soihet no livro ‘‘A Subversão pelo Riso’’, lançado pela Fundação Getúlio Vargas.
Soihet se aprofunda na resistência popular, que abriu brechas para preservar certas manifestações enquanto a elite, travestida nos abusos da polícia, se incumbia de reprimi-las. Neste quadro, sambistas e foliões que organizavam desfiles ou frequentavam lugares malfalados, como a Praça Onze - que reunia a nata do samba na época - recebiam adjetivos como ‘‘sujos’’, ‘‘vagabundos’’ e ‘‘marginais’’.
Professora da Universidade Federal Fluminense, Rachel Soihet se interessou por história cultural e passou a analisar a cultura popular brasileira, principalmente a carioca. A pesquisa resultou no interesse pela origem do Carnaval. ‘‘A maioria dessas festas começou a desaparecer, tidas como atraso. As classes dominantes queriam afastar os populares da rua. Na Penha a tradição continuou, mesmo com discursos que procuravam ridicularizar a manifestação. Lá começaram algumas batucadas, e a festa passou a ser considerada uma espécie de grito de Carnaval’’, comenta Soihet, em entrevista à Folha2.
Enquanto o povo se dedicava ao batuque, a elite carioca respirava ares europeus: ‘‘O que se queria era um Carnaval como o de Nice ou Veneza. Apesar dessa pretensão, vamos ter os populares tomando as ruas da cidade. É uma questão de resistência em sentido amplo, pois sofriam muita repressão, havia um grande estigma contra a cultura popular.’’
Anterior à festa da Penha, o entrudo, hábito herdado da Península Ibérica, já havia sido alvo do preconceito dominante. O entrudo consistia em uma verdadeira guerra de água, às vezes lama e até esgoto. Como na década de 30 do século 19 já existia um ideal de progresso e civilização herdado dos parisienses, a farra do entrudo também era vista como retrocesso. Mesmo assim, a tradição sobreviveu até o início do século 20, quando o Carnaval popular se avolumou com o samba.
‘‘Existia a pretensão de imitar Paris, era o símbolo dominante na Primeira República e encontrava acolhida até na arquitetura’’, explica Soihet. Mesmo assim, no Carnaval, os blocos e foliões ocupavam ruas desde o largo São Francisco até a Avenida 1º de Março, uma faixa considerável da cidade do Rio de Janeiro. Mesmo ocupando espaços delimitados, como a Praça Onze, os populares brincavam em territórios considerados nobres, como a Avenida Central.
Para a pesquisadora, essa distinção social só diminuiu na década de 20, com o modernismo, que pregava a cultura popular como base da nação. ‘‘O modernismo facilitou um reconhecimento, que aumentou com a era Vargas, quando o governo resolveu colher os frutos de uma sociedade aparentemente harmônica’’, revela.
O resultado foi uma série de concessões engendradas tanto por parte do povo quanto das classes dominantes: ‘‘Esse processo não veio só de cima, foi buscado pelos populares. Surgiu uma espécie de pacto, legitimado pela população, que era a maioria.’’
A ânsia de reconhecimento teria origem ainda na Primeira República, quando os populares eram, segundo a pesquisadora, excluídos da vida diária. ‘‘O Carnaval era onde eles exerciam uma cidadania. Eles tinham uma certa organização nos cordões, há todo um processo interno que antecede a festa para coletar fundos. Havia também a paixão de cada um por seu bloco ou rancho, e eles eram capazes de arriscar a vida em nome da entidade’’, ressalta a autora.
A década de 40 também apresenta uma inversão de valores por parte das classes dominantes, quando alguns intelectuais passam a buscar inspiração entre as classes populares. ‘‘A cultura popular influenciou a erudita, inclusive compositores como Francisco Mignone e Villa-Lobos. É uma interpenetração, o popular caracterizando presença na música erudita, ao mesmo tempo em que as escolas de samba passam a copiar alegorias das grandes sociedades. É uma troca, uma circularidade social’’, explica Rachel Soihet.
Para a autora, o livro revela que o povo nem sempre foi oprimido, passivo ou submisso como mostram algumas obras. ‘‘Através da história da cultura vê-se que eles estão em luta o tempo todo e perceberam que, se não conseguem uma mudança total, abrem brechas e garantem seu espaço de participação’’, acentua.
Embora ‘‘A Subversão pelo Riso’’ se limite até a década de 40, a autora acredita que há uma intervenção externa dentro das escolas de samba na atualidade. ‘‘É uma outra conjuntura, mas não vejo os populares totalmente afastados. Há tentativas de controle, mas os populares não perderam o seu lugar. A gente vê a participação da comunidade na Portela, na Mangueira, mas não é um tema que estou estudando’’, acrescenta. Misturando análise histórica, cultural e sociológica, ‘‘A Subversão pelo Riso’’ traça um quadro amplo de um período ainda pouco discutido do Carnaval brasileiro.ReproduçãoConflito entre a festa popular e a elitista só diminuiria na década de 40 O entrudo consistia em uma verdadeira guerra d’água, às vezes lamaRachel Soihet retrata a origem do Carnaval popular carioca em ‘‘A Subversão pelo Riso’’, lançado pela Fundação Getúlio Vargas

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