Nas raízes do Carnaval
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de fevereiro de 1999
Ranulfo Pedreiro 
O caminho até a Penha era árduo. Para homenagear a santa instalada no bairro carioca, os fiéis empreendiam verdadeiras jornadas, seguindo caminhos tão diversos quanto os meios de locomoção de meados do século passado: carroças, cavalos e barcos deslocavam uma massa de populares que se reunia em atividade religiosa.
Mas, aos poucos, a presença popular injetou características pagãs à romaria. Mais do que adoração, a Festa de Nossa Senhora da Penha, realizada em outubro no Rio de Janeiro, se tornou uma manifestação que agregava blocos carnavalescos e batucadas entre rezas, promessas e penitências.
Os festejos da Penha marcam o início do Carnaval popular carioca. Lá o povo se reunia para celebrar a santa em manifestações de características subversivas, de confronto ou inversão de valores, em meio a barracas que vendiam objetos religiosos e pratos da culinária da região. Consequentemente, os aparatos de repressão se ampliaram, aumentando os conflitos entre populares, polícia e exército.
A repressão a manifestações populares, que contrariavam os hábitos das classes mais abastadas - preocupadas com conceitos de origem européia que designavam palavras como progresso e civilização para discriminar os fatos que ocorriam nas ruas do Rio de Janeiro durante o Carnaval - era frequente no século passado, e se estendeu até as primeiras décadas do século 20.
O conflito entre a festa popular e a elitista só diminuiria na década de 40, durante o governo Getúlio Vargas. É justamente este o período - da Belle Époque ao fim do Estado Novo - pesquisado por Rachel Soihet no livro A Subversão pelo Riso, lançado pela Fundação Getúlio Vargas.
Soihet se aprofunda na resistência popular, que abriu brechas para preservar certas manifestações enquanto a elite, travestida nos abusos da polícia, se incumbia de reprimi-las. Neste quadro, sambistas e foliões que organizavam desfiles ou frequentavam lugares malfalados, como a Praça Onze - que reunia a nata do samba na época - recebiam adjetivos como sujos, vagabundos e marginais.
Professora da Universidade Federal Fluminense, Rachel Soihet se interessou por história cultural e passou a analisar a cultura popular brasileira, principalmente a carioca. A pesquisa resultou no interesse pela origem do Carnaval. A maioria dessas festas começou a desaparecer, tidas como atraso. As classes dominantes queriam afastar os populares da rua. Na Penha a tradição continuou, mesmo com discursos que procuravam ridicularizar a manifestação. Lá começaram algumas batucadas, e a festa passou a ser considerada uma espécie de grito de Carnaval, comenta Soihet, em entrevista à Folha2.
Enquanto o povo se dedicava ao batuque, a elite carioca respirava ares europeus: O que se queria era um Carnaval como o de Nice ou Veneza. Apesar dessa pretensão, vamos ter os populares tomando as ruas da cidade. É uma questão de resistência em sentido amplo, pois sofriam muita repressão, havia um grande estigma contra a cultura popular.
Anterior à festa da Penha, o entrudo, hábito herdado da Península Ibérica, já havia sido alvo do preconceito dominante. O entrudo consistia em uma verdadeira guerra de água, às vezes lama e até esgoto. Como na década de 30 do século 19 já existia um ideal de progresso e civilização herdado dos parisienses, a farra do entrudo também era vista como retrocesso. Mesmo assim, a tradição sobreviveu até o início do século 20, quando o Carnaval popular se avolumou com o samba.
Existia a pretensão de imitar Paris, era o símbolo dominante na Primeira República e encontrava acolhida até na arquitetura, explica Soihet. Mesmo assim, no Carnaval, os blocos e foliões ocupavam ruas desde o largo São Francisco até a Avenida 1º de Março, uma faixa considerável da cidade do Rio de Janeiro. Mesmo ocupando espaços delimitados, como a Praça Onze, os populares brincavam em territórios considerados nobres, como a Avenida Central.
Para a pesquisadora, essa distinção social só diminuiu na década de 20, com o modernismo, que pregava a cultura popular como base da nação. O modernismo facilitou um reconhecimento, que aumentou com a era Vargas, quando o governo resolveu colher os frutos de uma sociedade aparentemente harmônica, revela.
O resultado foi uma série de concessões engendradas tanto por parte do povo quanto das classes dominantes: Esse processo não veio só de cima, foi buscado pelos populares. Surgiu uma espécie de pacto, legitimado pela população, que era a maioria.
A ânsia de reconhecimento teria origem ainda na Primeira República, quando os populares eram, segundo a pesquisadora, excluídos da vida diária. O Carnaval era onde eles exerciam uma cidadania. Eles tinham uma certa organização nos cordões, há todo um processo interno que antecede a festa para coletar fundos. Havia também a paixão de cada um por seu bloco ou rancho, e eles eram capazes de arriscar a vida em nome da entidade, ressalta a autora.
A década de 40 também apresenta uma inversão de valores por parte das classes dominantes, quando alguns intelectuais passam a buscar inspiração entre as classes populares. A cultura popular influenciou a erudita, inclusive compositores como Francisco Mignone e Villa-Lobos. É uma interpenetração, o popular caracterizando presença na música erudita, ao mesmo tempo em que as escolas de samba passam a copiar alegorias das grandes sociedades. É uma troca, uma circularidade social, explica Rachel Soihet.
Para a autora, o livro revela que o povo nem sempre foi oprimido, passivo ou submisso como mostram algumas obras. Através da história da cultura vê-se que eles estão em luta o tempo todo e perceberam que, se não conseguem uma mudança total, abrem brechas e garantem seu espaço de participação, acentua.
Embora A Subversão pelo Riso se limite até a década de 40, a autora acredita que há uma intervenção externa dentro das escolas de samba na atualidade. É uma outra conjuntura, mas não vejo os populares totalmente afastados. Há tentativas de controle, mas os populares não perderam o seu lugar. A gente vê a participação da comunidade na Portela, na Mangueira, mas não é um tema que estou estudando, acrescenta. Misturando análise histórica, cultural e sociológica, A Subversão pelo Riso traça um quadro amplo de um período ainda pouco discutido do Carnaval brasileiro.ReproduçãoConflito entre a festa popular e a elitista só diminuiria na década de 40 O entrudo consistia em uma verdadeira guerra dágua, às vezes lamaRachel Soihet retrata a origem do Carnaval popular carioca em A Subversão pelo Riso, lançado pela Fundação Getúlio Vargas


