Nas raias do deboche
Ranulfo Pedreiro
Desde quando um fiapo de manga preso nos dentes dá música? Pois é, houve uma banda que era pura diversão e que conseguiu algum sucesso com o tema. Mardito Fiapo de Manga - cuja letra ressalta: preso no maxilar inferior - é a música mais conhecida de Saqueando a Cidade, disco que o Joelho de Porco lançou em 1983 e que volta às prateleiras no formato CD pela Movieplay.
Considerado o mais eclético e melhor disco do grupo, Saqueando a Cidade é resultado do bom humor que permeou a mente de Tico Terpins, líder do Joelho de Porco que morreu de infarte há cerca de um ano. A banda estava extinta e, numa conversa com Zé Rodrix - que foi um dos integrantes -, Tico buscava um nome para lançar um grupo novo.
Surgiram palpites como Careca e Penteado e Os Velhinhos de Miami. Queríamos um conceito interessante, mas aí eu achei que o Joelho era tudo isso e podia ser revitalizado, explica Zé Rodrix, em entrevista por telefone à Folha2. O retorno resultou no disco. Mais do que sarro, Saqueando a Cidade faz um retrato crítico do Brasil se apropriando da linguagem do cinema e televisão, entrecortado por uma série de clichês deliberadamente escolhidos por marcarem uma geração.
O non sense permeia o álbum, mas sobram farpas para a realidade nacional. Cada música foi tratada como uma cena - a gravadora reproduziu com fidelidade a capa e o encarte. A vinheta de Repórter Esso abre o CD e prepara a ambientação para Vai Fundo, de Tico Terpins, Zé Rodrix e Próspero Albanese Neto. Entre os intérpretes, além do trio de compositores, se destacam nomes como Lee Marcucci, Vânia Bastos e Hermeto Paschoal. No decorrer das faixas, aparecem ainda Faísca, Celso Pixinga, Roberto Sion e Cida Moreyra.
No repertório, entre jargões, surgem músicas de gosto propositalmente duvidoso, uma miscelânea de breguice e deboche. O disco traz uma estrutura cinematográfica e é baseado na memória de uma geração, na nossa cultura de cinema e televisão, ao mesmo tempo tentando fazer um painel do País na época, comenta Rodrix.
Não há um estilo definido. Desde as italianas Funiculi Funiculá e Conjunto de Beira de Piscina de Filme Italiano, passando por temas de TV - Bonanza e Vigilante Rodoviário - até Diana, de Paul Anka, Saqueando a Cidade traz uma criatividade que não foi prejudicada pelo tempo.
Foi muito legal, chegamos a trabalhar o disco durante um ano e nos divertimos muito. O Joelho de Porco era uma terapia muito cara. Foi sempre original e o álbum até hoje se mantém muito coerente, ressalta Zé Rodrix.
O compositor lamenta a morte de Tico Terpins, e revela que existem chances de sair um CD especial em sua homenagem: Estávamos trabalhando na revitalização de todas as músicas de sacanagem de nossa infância, era muito interessante, temos quatro faixas gravadas. Tico Terpins era meu amigo e a mola mestra do Joelho de Porco. O CD inédito deve sair após o relançamento de 18 anos sem Sucesso, de 1989, programado para o ano que vem.
Saqueando a Cidade teve problemas com a censura. A faixa que dava título ao disco tratava de um romance surgido durante uma onda de saques que abateu o País na crise do início dos anos 80, e foi proibida. Outro corte foi Roberto, que falava da paixão entre dois homens. Não é à toa que o grupo ironizou, fechando o encarte com a frase: se você não entendeu alguma faixa, pergunte ao papai.
Saqueando a Cidade - Relançamento do disco do Joelho de Porco. O CD pode ser encomendado pelo telefone 0800-164055 por R$ 7,00, mais despesas de envio.





