Há exatamente um ano, os brasileiros saíram às ruas uniformizados com a camisa verde-amarela. Foi o dia seguinte à final da Copa, realizada no outro lado do Mundo. Ontem e anteontem, as tevê voltaram a mostrar os dois gols de Ronaldo na partida decisiva.
O livro ''Ora, Bolas! da Copa de 98 ao Penta'', que o jornalista Daniel Piza está lançando nesta temporada, também transporta os leitores para aqueles dias gloriosos nos gramados da Coréia e do Japão. Mais da metade das 170 páginas reúne crônicas da jornada rumo ao Penta, extraídas de seu ''Diário da Copa'', publicado no jornal O Estado de S. Paulo.
O restante é dedicado à Copa anterior, vencida pela França, e a textos que intercalam perfis de jogadores, artigos sobre a crônica esportiva, reportagens sobre personagens do mundo da bola e reflexões sobre o período de queda e ascensão da seleção batizado pelo autor de ''intermezzo dramático'' ocorrido entre as duas últimas competições mundiais.
Ronaldo, o ''fenômeno'', é o grande herói do livro. ''Fui o primeiro articulista a acreditar em seu retorno, assim como a usar a expressão ''ataque dos Rs'' e a dizer que a equipe de 2002 era melhor do que a de 1998'' escreve ele na apresentação. Piza não é propriamente um colunista esportivo, preferindo atuar no jornalismo cultural, embora sempre tenha assinado matérias especiais para outras editorias.
Atualmente, mantém uma coluna dominical no Caderno Dois do jornal Estado de S. Paulo, onde escreve sobre assuntos diversos. Diferente dos especialistas de carteirinha da crônica esportiva, suas análises não se restringem a esmiuçar os lances, as atuações dos jogadores ou as táticas usadas por um time ou outro entre as quatro linhas. O enfoque é de um observador que procura revelar a transcendência do futebol.
Num dos textos, ele anota: ''O futebol brasileiro é como o jazz americano: uma arte do improviso, praticada em sua maioria por classes baixas dos subúrbios e interiores do país, mas com uma arquitetura subjacente, uma estrutura fincada em bons fundamentos e percepção estratégica. Futebol, como o jazz, depende de timing, da mudança de movimento feita num espaço de tempo maleável; e por isso os arranques, cortes e ataques de um Ronaldo são como o bebop, um estilo ao mesmo sofisticado e simples, consciente e espontâneo. Pois o difícil não é só fazer o que Ronaldo faz com a bola, é fazer o que ele faz sem a bola, assim como o difícil não é tocar as notas que Bill Evans toca, mas as que não toca''.
Além de textos publicados no ''Estadão'', Piza compilou também artigos que escreveu para a Gazeta Mercantil. O primeiro capítulo traz perfis de craques como Pelé, Zico e Sócrates, além de resenhas de livros sobre futebol. Neste bloco, uma polêmica antiga envolvendo dois gigantes da bola, é retomada pelo autor: ''Costumam comparar Pelé e Maradona da seguinte forma: Pelé era mais completo e regular; Maradona, que não chutava com os dois pés nem cabeceava com a mesma perfeição que Pelé, seria mais brilhante. Mas Pelé inventou incontáveis truques de que o próprio Maradona era devedor. O físico atarracado e o jeito de girar o corpo para usar a perna esquerda, muito superior à direita, dão a impressão de que Maradona era mais habilidoso, de que a bola grudava a seus pés. É mais uma impressão do que um fato. Pelé era mestre e inventor; Maradona, mais inventor que mestre''.
A saga de Ronaldo pontua várias passagens do livro. Piza foi uma voz solitária a pedir paciência para a recuperação do jogador, que viveu um longo calvário após seguidas lesões no joelho. Apostou num retorno triunfal do atleta. ''O curioso é que Ronaldo precisou marcar os dois gols da final para enfim aclamarem sua 'redenção', para 'lavar a alma depois do trauma de 98', etc'' escreve.
''Mas raras vezes um sujeito pôde agir sobre seu próprio destino como Ronaldo agora, com apenas 25 anos. Seu vulto já superou o de Romário, e, pois, de todos os centroavantes da história do futebol brasileiro; e, sem ser Pelé, Maradona ou Garrincha etc., já garantiu seu lugar entre os 20 ou 30 maiores jogadores de todos os tempos''. O livro discute ainda temas recorrentes como o significado do drible e o ataque versos retranca. O lançamento é da editora Nova Alexandria.
Serviço:
Livro ''Ora, Bolas da Copa de 98 ao Penta''. Autor: Daniel Piza. Editora Nova Alexandria (tel. 11/5571-5637). Preço: R$ 24,00.

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