As melodias elencadas no livro ''31 Canções'' fogem do lugar-comum, soando quase todas obscuras para os ouvidos brasileiros. Entre elas constam ''Rain'' (Beatles), ''Heartbreaker'' (Led Zeppelin), ''Can You Please Crawl Out Your Window?'' (Bob Dylan), ''Aint' That Enough'' (Teenage Fanclub), ''Pissing in a River'' (Patti Smith Group) e ''Frontier Psychiatrist'' (The Avalanches).
Eventualmente, você talvez até conheça uma ou outra da lista acima, mas é improvável que seu repertório seja amplo a ponto de esbanjar intimidade com canções como ''Hey Self Defeater'' (Mark Mulcahy), ''Glorybound'' (The Bible), ''Royksopp's Night Out'' (Royksopp), ''Let's Straighten in Out'' (O.V.Wright), ''The Calvary Cross'' (Richard e Linda Thompson) ou ''So I'll Run'' (Butch Hancock e Marce LaCouture).
Tais músicas não são exatamente as que o autor Nick Hornby julga as melhores de todos os tempos, mas as que mais geraram identificação. ''É um processo meio parecido com o de se apaixonar. Você não escolhe necessariamente a melhor pessoa ou a mais sábia ou a mais bonita; rola uma outra coisa'' pondera ele. É o que fez, por exemplo, uma canção de Bruce Springsteen ''instalar-se'' em seu aparelho de som desde que tinha 18 anos.
''Thunder Road'', segundo ele, é exagerada e pomposa tanto na letra quanto na música. Mas foi a canção pop que mais bateu em sua alma e a que mais ouviu ao longo de sua vida: ''umas 1.500 vezes (apenas uma vez por semana durante 25 anos, o que parece mais ou menos correto, levando-se em conta as repetidas execuções dos primeiros anos)''. Em boa parte das páginas, Hornby reflete sobre o que passou a ouvir ou deixou de ouvir após atingir a meia-idade.
Lembra de quando tinha 19 anos e só queria saber de punk rock. Confessa que, na época, deixou de conhecer muitos artistas pop por puro preconceito (''eu era um intolerante, tão obtuso e burro quanto qualquer racista''). Acertando as contas com seu passado, remete a uma lista dos ''100 Maiores Singles Punks'' divulgada pela revista inglesa Mojo pouco antes da publicação do livro.
''Seria justo dizer que provavelmente oitenta deles permanecem simplesmente medonhos diluídos, infantis, desafinados mesmo dentro do contexto punk, nada que um dia eu deseje ouvir de novo'' diz. O parágrafo faz parte do texto em que exalta as qualidades do compositor folk Jackson Browne, particularmente a canção ''Late for the Sky'', para a qual torceu o nariz quando foi gravada na década de 70.
Antes que o acusem de ''cuspir no prato que comeu'', ele argumenta que continua ligado em rock. Frisa, inclusive, que gosta dos Strokes. ''Para mim, aprender a amar canções mais calmas canções de country, soul e folk, baladas cantada por mulheres e tocadas ao piano, viola ou uma p... dessas não tem nada a ver com ficar mais velho e sim com o fato de adquirir confiança musical, capacidade de julgar por mim mesmo. Às vezes parece que, a cada ano que passou, uma camada de guitarra suja foi raspada fora, até eu enfim ter atingido o estágio de, espero eu, saber distinguir uma boa canção de uma ruim''.
Assim como ''Alta Fidelidade'' influenciou muitos leitores a fazer suas próprias listas de melhores e piores, ''31 Canções'' poderá inspirar outros tantos a escreverem sobre suas relações com as músicas.
Serviço:
- Livro ''31 Canções'', de Nick Hornby. Editora Rocco, 160 páginas, R$ 45,00

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