Sexo, sexo e sexo em dez histórias picantes. O álbum ''Na Trilha do Prazer'', que chegou às bancas pela editora Opera Graphica, traz uma míni-antologia dos quadrinhos eróticos produzidos pelo paulista Sebastião Zéfiro.
O volume, de 146 páginas, inclui ainda um conto e uma extensa entrevista com o artista cujo nome já provocou muita curiosidade, confundido com Carlos Zéfiro, o autor dos famosos ''catecismos'' publicados nos anos 60.
Ele, na verdade, não tem nenhum parentesco com o antecessor. Seu nome verdadeiro é Sebastião Seabra. Decidiu adotar o pseudônimo como uma homenagem e para não vincular seu nome diretamente ao gênero pornô-erótico, já que isso poderia prejudicar sua carreira profissional desenvolvida também na área da ilustração de livros didáticos e publicações religiosas.
Em ''Na Trilha do Prazer'', o autor mostra toda a elegância de seu traço, que procura ressaltar as curvas das personagens femininas. As mulheres de suas aventuras são invariavelmente voluptuosas, de intenso apelo sexy, capazes de levar qualquer sujeito sóbrio à perdição. Fogosas, são quase sempre as donas empolgadas da situação.
Em uma das histórias, um jovem padre chega à cidade para rezar sua primeira missa, mas acaba caindo em tentação seduzido por uma ninfeta de 15 anos. Depois de uma noite de prazeres proibidos, decide largar a batina. Em outra aventura, um professor de Faculdade é assediado por uma aluna, não conseguindo resistir aos ardis da menina.
Após uma jornada insaciável na cama, sente-se culpado pelo fato da garota ter a idade de uma de suas três filhas. No volume, cada história é precedida de um depoimento de Zéfiro. Numa delas, ele conta que a heroína foi inspirada em ''Tiazinha'', a personagem criada por Suzana Alves e que fez grande sucesso entre os marmanjos há três ou quatro anos na TV Bandeirantes.
Já o conto ''A Primeira Impressão'', que fecha a coletânea, teria sido influenciado pelas crônicas dominicais de Nelson Rodrigues. Na entrevista de abertura, concedida a Worney Almeida de Souza, o autor surpreende os fãs de suas HQs ao afirmar que ''nada supera um texto'': ''A linguagem do conto é muito estimulante. Nunca caí nessa baboseira de que a ''imagem vale por mil palavras', besteira de oriental. Meu sonho infantil era escrever romances policiais. Gosto de brincar com a linguagem'' salienta.
A produção em prosa de Zéfiro nunca foi reunida em livro, mas ele garante que possui pelo menos 100 contos dispersos em revistas como Hot Girl e Contos Excitantes, ambas publicadas pela editora Noblet. Se sua faceta de escritor manteve-se obscurecida, a obra de quadrinhista tampouco obteve a glória, afinal seu prestígio restringiu-se aos aficionados em HQs eróticas e pornográficas.
Nos anos 80, período do qual extraiu a maioria dos trabalhos compilados para o álbum, ele foi alçado à condição de mais solicitado autor do gênero nos gibis de sexo explícito brasileiros. Sua trajetória, porém, iniciou-se na década anterior quando lançou ao lado do editor Franco de Rosa as aventuras do ''Capitão Caatinga'' nas páginas do jornal Notícias Populares.
Ainda sem emprestar o pseudônimo famoso, publicou centenas de histórias em quadrinhos dos mais diversos gêneros pelas editoras Ebal, Grafipar, Noblet, Maciota, Press, Nova Sampa, Xanadu e Escala. Criou personagens marcantes como ''Chucrutz'', ''Mulher-Gato (lançada em álbuns na Bélgica) e ''O Vingador Mascarado''. No começo dos anos 80, com o fim da censura no país, aderiu ao segmento pornográfico.
Foi quando resolveu adotar o ''Zéfiro'' que, para sua geração, representava uma espécie de sinônimo para ''sacanagem'' e ''quadrinho erótico'', além de significar um código-referência contra a ditadura militar. Algum tempo depois, as pessoas passaram a confundir as obras do autor da homenagem com a do homenageado. Nessa época, Sebastião teve seus trabalhos pirateados por editores europeus e também publicados oficialmente na Europa.
Assim, a Carlos Zéfiro adicionou-se mais um motivo para controvérsias, já que sua verdadeira identidade sempre permaneceu sob a sombra. A revista Playboy investigou o mistério, chegando a revelar com estardalhaço quem era o verdadeiro autor dos ''catecismos'', as revistinhas proibidas dos anos 60, consideradas responsáveis pela iniciação sexual da juventude brasileira da época.
Segundo a publicação, quem assinava os gibizinhos libertinos era Alcides Aguiar Caminha, um pacato funcionário do Departamento Nacional de Imigração do Ministério do Trabalho, que recorria ao pseudônimo com receio de perder o emprego ou a aposentadoria. Há quem duvide da ''descoberta'', assinalando que por trás de Carlos Zéfiro oculta-se, na verdade, uma equipe de autores marginais, hábeis na arte de narrar historietas pornográficas.
A controvérsia continua de pé. Mas a certeza sobre o talento de Sebastião Zéfiro tornou-se, agora, inabalável com a publicação de ''Na Trilha do Prazer''.


Serviço:
Álbum de quadrinhos eróticos ''Na Trilha do Prazer''. Autor: Sebastião Zéfiro. Editora: Opera Graphica. Pontos de venda: Bat Banca (Rua Raposo Tavares, 687, tel. 43/337-0587, Londrina) e Itiban Comic Shop (Av. Silva Jardim nº 845, tel. 41/232-5367, Curitiba).

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