NAS PRATELEIRAS - O divino do samba
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 19 de novembro de 2004
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Cartola respira. A vida e a obra de Angenor de Oliveira (1908-1980) voltam a ser lembrados este mês com o lançamento de um disco e um livro. O CD ''Viva Cartola'' traz 17 faixas compiladas pelo titã Charles Gavin, que as remasterizou a partir das fitas originais das gravações.
O livro, de autoria da jornalista Monica Ramalho, traz a biografia do compositor e faz parte de uma coleção dirigida para o público infanto-juvenil. A nova coletânea não trai os clássicos inserindo as imortalizadas ''O Mundo é um Moinho'', ''As Rosas Não Falam'', ''Acontece'', ''O Sol Nascerá (A Sorrir)'' e ''Amor Proibido (Toda Culpa)''.
As faixas foram extraídas do álbum-coletivo ''Fala Mangueira!'' (1968) e dos dois discos-solos gravados pelo compositor nos anos 70. Embora não traga as letras das músicas, o encarte inclui um texto de apresentação do pesquisador Ricardo Cravo Albin e reproduções das capas e dos textos de contracapas dos três discos acima citados.
De trajetória peculiar, Cartola foi um dos fundadores da escola de samba Estação Primeira da Mangueira. Poeta dos morros cariocas, foi amigo e parceiro de Noel Rosa. Nos anos 30, teve composições gravadas por Francisco Alves, Silvio Caldas, Mário Reis e Carmen Miranda. Na década seguinte, sumiu estranhamente de cena sobrevivendo como lavador de carros e vigia noturno.
Por um longo período, foi dado como morto. Tornou-se uma lenda. Só foi redescoberto em 1956 pelo jornalista Sérgio Porto, que o encontrou num bar em Copacabana. Porto era sobrinho do crítico musical Lúcio Rangel, um dos maiores admiradores de Cartola e responsável pelo apelido de ''Divino'', que o identificou até a morte.
Já em 1964, Cartola e sua segunda mulher (Dona Zica) abriram o restaurante e casa de shows Zicartola, que se transformou em palco da melhor MPB da época aglutinando sambistas da zona norte e bossa-novistas da zona sul. Por ali passariam figuras como Paulinho da Viola, Zé Kéti, Nelson Cavaquinho, Elton Medeiros, Elizeth Cardoso, Aracy de Almeida, Nara Leão e Silvinha Telles.
Apesar do sucesso do lugar, a falta de tino comercial do casal levou-os a fechar a casa. Em 1968, Cartola foi convidado para participar do álbum ''Fala Mangueira!'' ao lado de Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça, Clementina de Jesus e Odete Amaral. É desse disco o pout-pourri de cinco faixas (''Tempos Idos'', ''Ao Amanhecer'', ''Alvorada'', Quem Me Vê Sorrindo'' e ''Alegria'') incluído na coletânea recém-lançada.
Quando já estava com 66 anos, o compositor finalmente entrou em estúdio para gravar seu primeiro álbum-solo. O disco, produzido por J.C.Botezelli (o ''Pelão''), saiu em 1974 pelo selo Marcus Pereira recebendo elogios do temido crítico José Ramos Tinhorão. Dois anos depois, o mesmo selo chancelaria o segundo álbum do artista repetindo a direção musical e os arranjos de Dino 7 Cordas e muitos dos instrumentistas do disco anterior.
Entre as curiosidades, trazia a participação do então pouco conhecido violonista e compositor Guinga. A música ''As Rosas Não Falam'', incluída na trilha de uma novela da Globo, conquistou as paradas promovendo um surto de shows, entrevistas e apresentações no Brasil inteiro. Um terceiro disco estava a caminho, desta vez pela RCA-Victor, quando Cartola foi traído por um câncer. Foi internado algumas vezes até morrer no dia 30 de novembro de 1980.
O livro de Monica Ramalho tenta resumir essa trajetória em 40 páginas. Por ser direcionado a crianças e adolescentes, traz muitas fotos e ilustrações. E algums informações curiosas, como o fato de Cartola só descobrir que seu nome de batismo era Angenor e não Agenor, como acreditava desde pequeno aos 56 anos.
Para escrever o livro, a autora entrevistou o filho adotivo de Cartola e Dona Zica, Ronaldo; os parceiros Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho; além dos amigos Sérgio Cabral, Paulo César Pinheiro, Claudia Savaget, Guilherme de Brito, Nelson Sargento e sua biógrafa oficial Marilia Barboza Trindade. O volume é o oitavo título da coleção ''Mestres da Música no Brasil'', da editora Moderna.
Serviço:
- CD ''Viva Cartola''. Gravadora EMI.
- Livro ''Cartola''. Autora: Monica Ramalho. Editora Moderna.


